quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Os agostos andam mais frios


Deveria sentir não ver a hora
do abraço de feliz aniversário.

Uma carta também não resolveria,
escritos demais pessoais.
É o pulso que manda, aquele confundido
com o pulsar de um coração sem pulso.

No leito da morte inevitável,
sabe que vai se arrepender.

Mas agora é muito frio
aqui embaixo da sombra do leão.

CRiga.

Política do antigamente


Ficamos assim então –
você me envia as tuas dores via rede
e ouvirá um fio de voz de antigamente
pra não dizer que falhei feio.

Eu falei pra você:
gente devia crescer até os vinte e pouco só,
depois tudo vira plantar árvores
pra completar o ciclo.

Nem sei mais rabiscar revoluções,
o caderno perdeu a cor.

Eu falei pra você –
havia o samba que morreria
e tudo apenas ficaria
doce arquivo de computador.

Pois então ficamos assim –
trocamos antigamentes via rede
sorrimos, lembramos
e voltamos a martelar a madeira.

Não o cedro da escrivaninha velha,
mas a mesa de falsa fórmica
de onde resistimos, silenciosos,
arriscando rabiscar
vagalumes sem luz.

CRiga.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Desculpe, poesia...


Terrivelmente assolado
por uma palavra apenas.
Não pela palavra. É por qualquer palavra!
O que falta é dividir dores incomunicáveis –
os jornais de amanhã não publicarão sentimentos.

A procura sempre cansa,
falta tempo de colher do teu sorriso
um por que dizer das coisas belas.

Eu me recolho,
um olho no sangue que corre
outro no moribundo que não morre.

Uma mão escrevendo receitas de bolo
nos espaços em branco do jornal;
outra segurando a tecla ON
do equipamento de respiração.

São dias de criatividade ao contrário,
apenas gritos abafados, nada construirá.

Falta tempo de colher da tua doce distração
um por que fugir a tempo de não me tornar
apenas
pedra peso para papéis desimportantes.

CRiga.


segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Sabe aquela sensação de nunca mais?


Sair uma hora antes, pegar estrada.
Aproveitar a meia-entrada no cinema.
Cozinhar, conversar, ajudar na lição de casa.
Assistir àquele programa do Canal Brasil.
Beber uma, apenas uma, garrafinha de cerveja.
Certeza de poder de te ver contente.
Pegar o mercadinho aberto.
Ir aqui bem perto ver aquelas meias pra você.
Escrever uma poesia
no meio do meu dia.

CRiga.


Cara de segunda


Havia tempos cinzas nas ideias
que hoje se juntam a esta besta segunda-feira 
nublada, malacabada, nem começou...

Tempos em que o caminhar 
até a porta daquele emprego de jornal,
era via crucis, nuvenzinhas cinzas
no lugar da clássica coroa de espinhos.

Há um coração nublado, amargurado.
Quem não corria 
no encalço das 17 ou das 18 horas,  
espera agora apenas não ser engolido 
por uma terça-feira qualquer,
num sorriso sarcástico de meia-noite.

CRiga.


sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Retórica operária


É o ponto que mesmo o ateu
dá graças a Deus
por ter um prego pra martelar.

Teme até ser castigado,
pecado reclamar.

CRiga.

Paralelo


Cometa enfim o ato derradeiro
e feche de vez as cortinas da
tragicomédia.
De agora vão se embora os
espectadores,
de agora as dores permanecem.

Provoque no fim o riso,
porque enfim
as cortinas se fecharam
mas o teatro continua.

CRiga.