quarta-feira, 22 de junho de 2016

Sem ponto cardeal


A nova era já era,
e o novo erro é mero acerto.
Não há caminho certo, nem perto.
Aperte o cerco, do esterco sai a rima.
Acerte o ponteiro, o poeta é certeiro
e sem direção.

CRiga.

Sem rei mago nem madrinha fada


Não tem “me cobre” no frio da noite
nem levar copo d'água na cama, "tou com sede".

Não tem bala nem maçã da feira
tem gibi da Mônica de vez em quando.
Leite em pó contado, duas vezes por dia,
e tarde da noite esperando num ponto
um ônibus e a mãe chegar.

Tem visita a cada 15 dias,
brincar de cartas eu me lembro
e pai com fome, filho tinha de se virar
leite frio empolotado e pão de ontem.

Tem é muita briga de pai e mãe,
no banheiro trancado, ecos estranhos,
no quarto fotos queimadas num canto,
nos socos que ela dava no sofá
depois do bater da porta na sala.

Mais tarde, acusações lidas à beira da cama,
“olha a carta que escreveu!”,
falou de compadres e comadres
e o presente, não nos deu.

Madrinha fada e rei mago
podem alegar que não faltou nada
no mundo em que precisaram 
matar as fantasias,

só faltou me sentir mais quentinho
copo d’água na cama tarde da noite,
menos bronca do rei mago
e mais luz da varinha, madrinha fada.

CRiga.


terça-feira, 21 de junho de 2016

Abrigo da rima pobre (desilusão)


Rimei Rosa Maria e o anel
com um bordel muito velho
no centro da cidade.

Precisava correr dos faróis
porque tua aliança rolou na avenida
até um bueiro mais abrigo.

Remei na rota quebrada
água suja corrente na sarjeta,
chovia horrores naquela noite.

E Maria no bordel amigo me deu de presente
uma rosa sem nome
e seu umbigo pra me esconder do mundo.

Rumei entre suas pernas como rumasse
a lugar qualquer que não fosse guerra.
Eu só queria poder chorar naquela noite,
rima pobre de qualquer verso meu.

CRiga.


segunda-feira, 20 de junho de 2016

O morrer na praia de um verão

Você morena na areia dum verão,
eu farol vigiando adultos navegantes.

Não pude fazer brilhar mais tua cor
e minha dor foi como o apito dum navio
deixando no cais sozinho o marinheiro
sem roupa, sem dinheiro,
sem alma e coração.

Quis gritar que as ondas levaram tua presença
e teu cheiro de chuva de verão,

mas o mar não me deixou mentir,
e você morena sozinha 
perdida na areia da praia
chorou quando o verão acabou.

E eu farol segui salvando náufragos
morrendo uma estação de cada vez.

CRiga.


Um dia pro resto da vida


Tão insistentemente Vera batia na porta, como quem não tivesse nada mais no mundo a não ser o ser humano do outro lado da madeira velha. Aquela porta acinzentada que dava direto naquela avenida do centro da cidade. Às vezes incomodava ter que vencer os mendigos e putas no meio do caminho na calçada, mas vencia porque amava tanto o ser do outro lado da porta de madeira velha, insegura. Qualquer um, com um mínimo de esforço, podia arrombar a fechadura e levar o submundo pra dentro daquele lugar sempre sujo, mini sala-cozinha-banheiro-quarto, cinzeiro sempre transbordando, garrafas vazias, baratas, calor, mofo, cama desarrumada, gritos na madrugada, abrigo, prazer.

Era aquilo que Vera queria naquela noite, trazia consigo também meia garrafa do conhaque barato. Só aquilo. Batia, batia na porta feia como que suplicasse socorro ao inferno. Chovia. Vera chorava, mal sabia por que.Tanto que batia a mão sangrava, mas não deu importância à dor – só queria ver abrir-se a porta, abraçar aquele ser inatingível que sempre amara mas nunca conseguira perceber assim. Quando teve certeza que amava desesperou-se, correu pela cidade, na chuva, uma garrafa ao colo e um coração que doía uma dor que nunca sentira. Enfrentou putas e os mendigos no meio do caminho, e lá estava ela naquela porta fria. Batia, batia, chorava, sangrava. Dormiu na escada de dois degraus, a porta nunca se abriu.

Dia seguinte o agente da imobiliária com sua placa de “Aluga-se” teve um trabalho a mais: convencer Vera que ali não morava mais ninguém. Era já cedo, e Vera entendeu que era muito tarde, não tinha mais por que voltar a lugar qualquer. Chorou mais uma vez, soluçou sentada. Vera então entendeu o que era arrepender-se.

Vera envelheceu como a puta mais famosa e mais desejada do centro da cidade. Morreu sozinha agarrada a uma placa velha de “Aluga-se”, estirada numa escada de dois degraus, depois de, como dez anos antes, passar a noite batendo naquela porta.

No óbito, causa mortis: solidão.

CRiga.



sexta-feira, 17 de junho de 2016

Um verso para Maria




Um verso novo
pra nosso amor
que não é velho,
que é tão novo
como cada dia.

Um verso universo
pra quem precisa de algo novo,
de algo velho,
de um segundo de alegria
no dia inevitável.

Um verso, meu amor,
apenas pra aliviar a dor,
um verso que traga de novo
um trago do vinho esquecido,
o que do velho há de bom.

Um verso pra sobreviver mais um dia,
um verso pra viver
de novo, todo dia.

CRiga.