terça-feira, 24 de novembro de 2015

Drops

Beijava o drops cereja
com promessas de para-sempre.

Mas o para-sempre perdeu o gosto,
e no bolso coube a vida inteira
dentro da carteira, uma foto desbotada.

Relançaram o drops nesse verão.
E eu não beijei
só lembrei...

CRiga.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Poesia de computador

Precisava cortar a veia violeta
e jorrar um sangue qualquer sangue
sangue da idade, sal da idade,
o vinho é melhor mais velho
só para o velho, para o velho...

Precisava correr os bares
e manchar um caderno qualquer caderno
caderno sem compromisso,
hoje a poltrona, poesia de computador
só falta a dor, só falta a dor...

Precisava não ser mais velho
e envelhecer a essência qualquer essência,
decência menor é morrer
sem ter escrito um livro
e sem ter feito um filho.

Eu preciso plantar uma árvore....

CRiga.



Insepultos

Somos culpados por esse gosto de vinho seco
que morre na boca sem o beijo.

A sensação do fogo contido
do erro, do engano fingido,
do gaguejar, do quase chorar num corredor qualquer
da vaga memória do coração partido.

Tua foto de óculos pra disfarçar o passado
e minha foto sem espírito, com sorriso universitário...
Cicatrizes que teimam sangrar marcando passos.

Somos condenados
por esse morto enterrado em cova rasa,
sem justiça, sem defesa.
Jaz na terra um aro preto já quebrado.
Jaz na lápide um sorriso triste desbotado.

Tempos assim de triste outono,
da terra fofa nascem as letras cinzas,
plásticas flores que a gente sempre rega.
Então ao pé da cova a gente para e reza
queimando as testas nos tocos de vela.

O sangue e o vinho se misturam na lama
depois de a chuva densa encerrar a tarde.
É a hora de apagar as letras e podar as flores,
apagar as velas e podar as dores
fugir às pressas e chorar baixinho.

Pois somos apenas os culpados
por esse gosto de passado insepulto
gosto seco
feito o beijo que a gente não deu...

CRiga.



terça-feira, 17 de novembro de 2015

O voo

A garota àquela hora já estava cansada de andar entre as ruas do Centro, de lá para cá, olhando vitrines desinteressantes e o chão. Aquele conjunto de ladrilhos que formava o mapa do Estado de São Paulo, em linhas retas, velho e azul como o metrô na Estação da Luz, bêbados, cheiro de mijo nas esquinas, cadê as lojas de discos que eu li a respeito?

Com seu coturno preto até o joelho, brinquinhos, cabelo preto preto até a nuca com tatuagem - de henna -, uma caveirinha, esqueletinho inteiro, bonitinha até. Logo acima do decotinho, sobre um dos seios que despontava durinho, outra tatuagem de henna, um beija-flor. Liberdade eu quero. Uma saia xadrez grande, cara como tudo que possuía. O menos caro que tinha era a idade: 16.

Não tinha amigos mais, decidira. Todos eles eram burguesinhos demais, raves, ecstasy, Dysney Word, carros importados, mendigos incendiados, prostitutas agredidas. Ela então resolveu um dia torrar a mesadona em roupas daquelas que as amigas não usavam. Tudo de grife, ficou uma “punk chic”, e pensava ser diferente.

Não chamou o motorista pra ir ao Centro, foi só, um táxi. Disseram um dia pra ela que aquele era um lugar “cool”, da moda, onde tribos urbanas se reconheciam. Como não tinha ninguém pra acompanhar, foi sozinha mesmo. Cansou de caminhar, sentou no chão, tipo rebelde. Cabeça baixa, sem absolutamente nada de criativo na cabeça. Era magrinha, bonita, olhos pintados a lápis preto, batom preto, um olhar de pureza de novela das oito e aquelas famílias com sotaque carioca, da Tijuca.

Surpreendida aos chutes, viu moleques descalços tentando roubar sua mochila. Gritou mamãe, papai, não havia ninguém, apenas a multidão que passava acostumada às cenas de moleques roubando esses drogados do centro da cidade. Ninguém fazia nada. Era normal, deixa a vida seguir assim. Os moleques aos xingos, sua puta, vaca, passa logo essa merda. Um deles deixou cair o cachimbo de crack. Foram embora andando, dando risada, gestos obscenos.

A bolsa se foi, ela caída no ladrilho da realidade do centro de São Paulo. Isso não era cool. Levantou cambaleante, chorando, sangrando no canto da boca. Não tinha grana nem para pegar metrô e ônibus de volta, nem sabia voltar. O celular com câmera fotográfica foi junto com a bolsa. Sentou de novo chorando, agarrou o cachimbo de crack, nem sabia do que se tratava.

“Olha aquela menina, tão novinha se drogando”, ouviu. Quando virou-se, duas freiras comentando. “Me ajuda, não sou drogada, não sou”. “Sai, sai!..”, as freiras se livrando das mãos dela.

Parou olhando o nada, assustada. Não sabia nem ligar a cobrar de um orelhão. Queria mesmo era saber voar pra fugir dali. Como quis poder voar, agressiva contra o céu, contra o mundo, contra todos.

“Ta perdida, filha?”. Era um homem dos seus 40 anos, camisa manga curta, gravata, óculos de aros pretos, tipo corretor da bolsa de valores. “Tou sim, me ajuda”, contou toda a história. Ele pagou um refrigerante para acalmar. “Venha, vou levar você pra casa”.

No carro, desviou caminho. Rua erma. Olhar de brasa, quase babava, foi com todos os braços e pernas pra cima dela, abrindo a braguilha. Gritos dela abafados por um tapa, ela desmaiou. Escuro total.

Acordou num hospital, hematoma, muita dor. Havia sido jogada numa calçada, um gari a encontrou caída e desacordada. Pela tevê já haviam identificado a garota, fugiu de casa, revoltada com o mundo cor-de-rosa. “Seus pais estão a caminho, fique calma agora”, uma voz de enfermeira.

Não ficou. Chorou, chorou desesperadamente. Gritava não por causa da dor no corpo inteiro, rosto, braços, pernas, entre as pernas. Era uma dose tão cavalar de realidade que a dor doía em sua alma. Antes cabeça vazia, agora cheia de terror. Soluçava. Minutos depois foi baixando o tom, baixando aos poucos, fechando os olhos. Tentou buscar algo pra continuar, não encontrou.

Papai e mamãe chegaram. Férias da escola, roupa nova, tratamento rápido, uma viagem pra Europa. Um lago em Paris, a cidade das luzes, sobre uma bela ponte, alta. Melhor lugar não havia.

Cabeça vazia que a cidade das luzes não iluminou. No escuro, na marginal lá embaixo, a mesma saia xadrez manchada, no bolso um cachimbo guardado, usado há pouco. Agora nua, branquinha, pêlos pubianos ainda ralinhos e seios pequenos, biquinhos. De pé sobre o peitoril da ponte, braços abertos no frio europeu, mais imagens confusas de moleques descalços gargalhando, um carro abafado, um corpo de homem mais velho sobre ela de lá pra cá. Um hospital. E mamãe e papai pagando viagem, se livrando do problema, sequer perguntaram porque estava ela tão longe de casa àquele dia confuso no Centro. Um beijinho frio no aeroporto, se cuida, aproveita, tem dinheiro na sua conta pra fazer o que você quiser.

E, pela primeira vez, quis de fato alguma coisa. Nada contra o mundo, nada contra ninguém. Ali, naquela ponte, em Paris, nua sobre o peitoril, melhor lugar não havia. Só queria aprender a voar.


CRiga.
(Vencedor do Prêmio Barueri de Literatura)



quinta-feira, 5 de novembro de 2015

A vida cavalga


É o inverno que muda as coisas, me faz lembrar de você de novo como se eu fosse a culpada por não se feliz. Talvez seja mesmo, talvez você nem se lembre mais de mim, então remexo velhos pertences e não me encontro, só encontro você. Remexo números, não te encontro, ligo à telefonista, simpática, quase chora comigo, esses homens que nos esquecem são foda... Esse é o número mais próximo, então ligo, você não está mais lá, mas alguém diz “ele está em tal lugar”. A telefonista me dá então a porra do número do tal lugar, sem certeza penso te encontrar, alguém atende pelo teu nome, te encontro, é você, meu antigo amor!

Simpático como sempre! Casado, mas simpático. Com um filho, mas tão amoroso como sempre. Mudei de casa, você não sabia, e você me disse que foi me procurar numa noite com flores e vinho às mãos, e que por isso não me encontrou. Mentirinha bonitinha, me conquistou. Que saudades de você, do seu beijo, do seu abraço, do seu amasso. Acho que aproveitei pouco, muito pouco, não te dei devida atenção, eu sei, me arrependo, sou libriana, quero tudo vindo, quase nada indo.

Mudei de jeito também, você não sabe? Não saio mais em tantas baladas, parei de fumar, me conheço mais, gosto mais de mim, estou só um pouquinho mais gordinha, sem tanta diferença, acredite, estou mais bonita. E não cavalgo mais, você acredita? Eu também. Só falta você pra completar, mas não tenho coragem de dizer. A vida cavalga, eu parei.

Determinado momento você disse que é importante agarrar as chances quando elas vêm. Não esperar que aconteça, apenas estar esperta para a hora que acontecer. Sei que não foi por querer, mas parece que isso me feriu lá dentro, sem você perceber. Eu sei que não foi por mal, meu amor, nada vai me fazer tão mal quanto esta vontade de te pedir desculpas sem tempo, essa vontade louca de voltar no tempo e te agarrar, esperar que aconteça e estar esperta para fazer acontecer.

Bem, me ligue um dia também. Vamos sair, quase eu disse, tomar um chope, você não pode, agora tem família e não vou insistir. É errado, nem sei se tenho coragem. Acho que teria, te beijar de novo como antes valeria. Matar-me mais um pouco por não ter você, recriar-me por segundos eternos nos teus braços que um dia me tiveram mulher.

É o inverno que muda as coisas assim, faz a gente amanhecer cinza com saudades do passado que passou entre os dedos, feito areia de ampulheta que a gente não agarrou. Eu te amava e não sabia, me perdoe, meu amor. Seja feliz, seja feliz, vou desligar. Eu ainda tenho a poesia que você fez pra mim, preciso desligar pra não chorar. A vida cavalga, eu não mais...


CRiga.