domingo, 7 de dezembro de 2025

Longas cartas pra ninguém


Enfim. 

Eu estou aqui novamente procurando aviões no céu. Um sentido que seja. Procurando o Cauê que sempre me deu paz.

Me lembro que eram cartas e fitas cassete. Até incenso pelo Correio. Foram histórias, bruscas, inclusive. Você tem toda a razão do mundo em ser quem você quer ser. Porque é você.

Mas eu fiquei. Parado. Olhando você não exatamente ir embora – era você indo, apenas. 

Mas, nessa novela, eu não quero ser teu amigo.

Nem preciso dizer que te amo, você já sabe. O quanto amo, o tanto que amo!

Mas até o amor precisa de ar, eu sei. Nem que seja aquele ar que a gente se afoga pulando do precipício. Tá valendo!

É que dura um tempo no pulo, um tempo grande até chegar lá embaixo. A gente nem tem a intenção de se esborrachar – mas é necessário, sim,  a gente chegar perto da rocha e quase bater a cara na pedra. O truque é saber, de vez em quando, apenas flutuar...

Porque bater de cara na rocha do litoral, convenhamos, a gente sabe como é. E na verdade nem tem jeito de nunca mais bater – a diferença, como diz o ditado, é aquela coisa do “água mole em pedra dura”.

Água mole e muito boa quando bate na pedra dura que sempre esteve ali, não fura nada.

Só encontra outro curso.

CRiga. 


 

“Aprendi a veranizar” (*)


Chovia
E eu me via
Chorar nos telhados da cidade feia.

Mas chorei pouco
Choveu pouco
O suficiente por hoje e por um verão.

Chorava
E eu chovia
A chuva de um batismo.

A chuva de um otimismo
Que só cada estação pode ensinar.

(*) “Veranizar”, Leo Fressato

 CRiga.





The Religion Song

 


Eu me cavouco.
Tem uma mãozinha que luta contra a terra fofa
Me pedindo socorro.

E eu me cavouco.
Boto um Pink Floyd na vitrola
E quase sou a quarta voz.

Mas logo me recomponho –
A ideia é ser a primeira
Harmônica e serena
Plena.

Porque de resto o que me resta
É a festa do meu silêncio
Te dizendo adeus.

CRiga.




Lágrima

 


Agora só há uma coisa de que preciso muito, e você não vai acreditar:

Chorar.

Por que chorar é agora tão difícil?
Essa dor que há
E não dispara louca pelo campo aberto
Feito belos cavalos selvagens?

Eu espremo a alma, os olhos.
Torço o coração feito roupa recém-lavada
E nada
Nem uma lágrima vem. 

Porque eu já disse lá trás -
“É preciso lavar a alma
Nem que seja à base
De um balde de lágrimas selvagens”.

Não conseguir chorar pra mim não é um bom sinal.
Ou é que espero a represa se romper
Ou que não mereço mais chorar.

Eu prefiro acreditar na segunda,
Mas não sei:

Vamos andando em frente do jeito que dá.
Talvez a próxima lágrima
Seja apenas a de alegria
De encontrar aquele velho e bom Cauê da paz.

CRiga.




sábado, 6 de dezembro de 2025

Já era

 


Porque quando a gente escolhe esquecer
Nem vale mais essa coisa de desculpas tardias.

A gente agradece, tudo bem.
Mas por favor deixa a vida fluir
Sem ensaios de querer sermos amigos
Parceiros
A gente não é mais
Nem nunca mais será.

Vai embora
E deixa eu ficar aqui de boa
Quietinho
Pra redescobrir onde posso ir
Onde posso de novo ser
Finalmente sem você.

CRiga.




quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Os mesmos erros

 


Projetou no menino a razão soberba
E cruel, como sempre gostou de ter.

O problema é a hora que a conta chega
E as pessoas já estão cicatrizando as feridas.

Mesmo assim não baixa a crista.

Ou, quando ensaia baixar
Já é tarde
Tão tarde
Assim demais...

CRiga.


O teu mal inconsciente

 


Um traço na minha agenda que não posso
Ou não consigo apagar.

Apenas lá para constar.
Para me jogar na cara
Que a vida nem a dor são assim tão simples
Quanto uma mensagem de WhatsApp.

Um traço não aborta da memória o nome
Mas coloca, sim, as coisas no lugar.

CRiga.