quarta-feira, 14 de agosto de 2024

Tumulto

 

Meus olhos procuram você
E você me acusa de não pagar
O teu passado
Com a moeda do assassinato
Dos meus sonhos.

E meus sonhos, olhos
Continuam no tumulto
Procurando aquela você.

CRiga.


terça-feira, 13 de agosto de 2024


 

Quarenta

 


Agulha travada na sujeirinha do velho vinil.
Uma nota só no solo triste de uma guitarra
E num grito mixado de solidão.

Meio emeéle no vidro do perfume francês.
Um cheiro só na fragrância de perder os rumos
Insistindo em guardar lembranças.

Fotografia desbotada no bolso do surrado jeans.
Uma cor de pó gritando no assoalho comido
Um nome rangido, abafado.

Botão de rosa pendurado
No caule quebrado do abandono.
Plantas revirando em nó
No sedento jardim do quintal de pedra
Invadindo a casa um dia lar.

Morri, mas estou de sobrevida
Procurando tolos atalhos
Nas coisas que mofaram
Nos objetos sem objetivos.

Um dia desistiram de mim
Sem me avisar, não foi por mal.

Sexta-feira eu reprogramo
Meu próximo inferno astral.

CRiga.



 


terça-feira, 6 de agosto de 2024


 

Efeito colateral

 



O soldado na trincheira chora
A saudade da terra prometida
E da primeira namorada.

A moça no jardim implora
Mas chuva não traz de volta o seu bem.

A velha na cama conversa com a luz
E Jesus desliga o interruptor.

CRiga.




segunda-feira, 5 de agosto de 2024


 

Um brinde a quem caminha!

 


Há caminhos, caminhante,
Trilhas, atalhos, avenidas.

Há vidas que se cruzam, encruzilhadas,
A dúvida no passo também é normal.

Há o mal, e ao lado não o bem:
Há ali você também
Mãos dadas ou num adeus.

Há mágoa e um rio doce,
Deixe a água pura te embriagar,
Te curar, todo dia é um novo batismo.

Há remédios e receitas de bolo,
Bulas, mapas, livros de poesia
E alguns manuais de pra te autoajudar.

Há máquinas que não param de trabalhar,
Trabalhadores que não param de maquinar –
Como sair, como amar nesse turbilhão?

Há dívidas que a gente paga de coração
Há outras que não aceitam nosso perdão.

Há no fim do arco-íris uma sexta-feira de sol,
Uma flauta doce, um Ravel e um rock and roll.

Há uma mesa reservada, a bebida é gelada,
É inverno, mas a sede de viver
Nos arrasta até a madrugada.

E há no fim um novo começo,
Tropeço, joelho ralado, um lado que dói.

Mas há caminhos, caminhante,
Trilhas e atalhos como antes!

CRiga.