É branca a
manhã do teu olhar, sereno
São várias as
possibilidades de um poema.
À mesa o café
recria a força, embevece o querer.
Alimento é
passar o dia inteiro com você.
CRiga.
É branca a
manhã do teu olhar, sereno
São várias as
possibilidades de um poema.
À mesa o café
recria a força, embevece o querer.
Alimento é
passar o dia inteiro com você.
CRiga.
Enquanto a
chuva cai num chavão eterno
Minha rima no
inferno quer se afogar na certeza
De que o
excesso vale mais que o impresso velho
Colado no
poste mijado pelo vira-lata amigo.
O conhaque
sob o sobretudo denuncia –
São Paulo
ainda é a mesma amiga linda e traiçoeira.
Eu me
apaixono e alguém me derruba fácil na sarjeta
Só com um
desvio de olhar esguio.
Quando eu
morrer, Mário,
Quero sirenes
nas lojas de discos que não existem mais.
A inocência
daquela juventude de não ter como voltar pra casa
Na madrugada
depois da noitada embriagada de esperanças.
Eu acariciava
seu rosto com as costas das minhas mãos,
Havia
a poesia serena de um filme italiano.
No pulso fino
havia um reloginho que foi roubado,
No peito
lindo havia um segredo nunca desvendado.
E eu, garoto
dependurado nos ônibus das madrugadas frias,
Não me
importava com nada nada.
Atravessava
cidades no meio da semana que não me cansava
Só pra ver
você sorrir pra mim.
Hoje a chuva
cai distraída, provoca um ai.
Cada gota que
cai pesada
Parece uma
lágrima que um dia eu chorei.
CRiga.
Enfim a gente encara porque a cara cansada
Fez a barba.
Enfim a gente se embriaga porque a bebida
É a mais barata.
Enfim a gente se encontra de novo na noite
A gente plantou encontros dissonantes.
Enfim o jardim deu aquela flor.
Como é maravilhosa a impossibilidade do amor.
CRiga.
À meia-luz a morte loira caminha tranquila
Vestido branco na cozinha ainda morna.
Vagalumes bêbados flutuam
Não há saída de emergência.
Madrugada é a brasa que se confunde
Moribunda na solidão do fogão à lenha.
A velha na cama sussurra preces de perdão
Estende a mão ao vazio do quarto escuro.
O vento leva embora lençóis surrados do
varal
A rosa murcha doa pétalas perfumando o
ar.
A madeira no chão range abandonos
Cinzas são o tapete da visita.
Jesus chega manso à porta entreaberta
Sorrindo a paz de um quase dia
qualquer.
Indicador nos lábios sugere silêncio
O som é apenas um click de interruptor.
O sol nasce apagando a dor.
Hoje não tem cheiro de café.
CRiga.
Me esqueci no fundo de um copo
Cheio de preocupações alheias.
Não posso mais ser areia de ampulheta.
Quando eu me encontrar quero ver você
De novo de branco encanto.
Eu canto, sorrio, gargalho e te levo –
A vida não é isso que a gente fixa num quadro.
Na minha taça há um suco que me embriaga
Na minha vida há uma fome de agora,
Não há mais tempo de reclamar.
Quando chegar este domingo incerto
Quero apenas saber qual é o prato do seu dia.
Quero apenas a certeza de um tempero
Que ainda traduza aquele velho e bom amor.
Seguiu-me num frasco plástico mole e rosa
Era uma história de queimar fotografias.
Esses dias me deu um cheiro novo
Sobrou lá da clínica de onde voltou.
Naquele inocente barbeador de gilete de verdade
Havia pais imagináveis e imemoriais.
No pinball de madeirite há um moleque inexperiente
Que ainda empina pipa com linha de costurar.
CRiga.
Carrego entre as duas mãos juntas em concha
As pétalas de uma rosa que morreu jovem demais.
Pesa bigornas. O caminho do cortejo é vasto,
As folhas secas denunciam um vacilo.
O cimento intacto ainda guarda velhos sonhos.
Rosas secam, meu amor.
Outras nascem e o ciclo perdura,
Só a primavera sorri rangendo os dentes
Nesse sol de solidão tão quente.
Eu apenas espero a noite.
Cultivo uma vontade adolescente
de sentir aquele medo bobo de assombração.
CRiga.