quarta-feira, 7 de outubro de 2020

Blues do quase abandono

 

As cadeiras e bancos estão se acabando.
Ficam tão sozinhas e sozinhos
que tão bem acompanhados.

O fogão era vermelho vermelhão.
Trincou saudades tuas um braço na panela
outro na cintura senhora cozinheira.

Dá dó quando junta pó.
Quando o nó não desata mais
e as teias viram só algodão doce.

Aquele pé de fruta esperou a água.
Na pedra da fonte o escorpião estátua
denuncia sua espera quando o sol nos salvou.   

Mas a lebre tá sempre ali!
É o espírito da terra que te olha
sorri pululando boas histórias.

Vem pro mato,
que a morte espreita!

Vem logo, deita.
O pau velho que segura a cama
ainda declama um final feliz.

CRiga.



Treze de Outubro

 

Não levarás tua eletrobanda.
Deixarás n’água furtada calado o pecado
que dominas dedilhando um rock and roll.

Não levarás o mergulho de ponta.
Deixarás de novo o musgo vigiar teus pés
enquanto dominas a arte de calcular emoções.

Não levarás a tinta pra pintar de azul.
Apenas interiorices pra salvar o orçamento
de colorir janelas com vistas ao infinito verde.

Não guardarás tudo.
As coisas ficarão em seu lugar.
O amor toma conta dos detalhes.

CRiga.



Francisco acompanha "A Doce Guilhotina"

Barueri realiza anualmente um evento cultural chamado "Caravana da Família", em que alunos das oficinas de arte apresentam seus talentos, se possível, acompanhados de um familiar. Este ano, por conta da pandemia, o evento será on line; e também por causa da pandemia, Francisco está em Piraju, longe do piano, mas agora próximo à guitarra. 



terça-feira, 6 de outubro de 2020

Massa de manobra

 

Um punhado de gente sem cultura.
Uma xícara de assunto polêmico.
666 colheres de malícia.
Uma pitada de maledicência.

Junte tudo e bata em alguém.
Deixe o fermento da fome fazer crescer
e leve ao fogo da intolerância.

Deixe assar reputações,
depois grelhe no fogo das vaidades
e cubra com uma boa verba de jornal.

CRiga.


segunda-feira, 5 de outubro de 2020

O circo pelo pão

 

Tem que gostar,
fingir gostar
ou forçar-se a gostar.

Como a fotografia não mente
todos sorriem e se abraçam pra lente,
num mundo perfeito de flashes
e notas sociais.

Nesse circo,
ao lado da querida autoridade paralisada,
os pobres desdentados também sorriem
seu momento de glória maior.

Na manhã seguinte
apreciam as notícias do dia –

uns com seus brioches
rindo e falando mal,

e outros com o pão de ontem
trocado por foto
na coluna do jornal.

Tudo parte
desse grande teatro social.

CRiga.


sexta-feira, 2 de outubro de 2020

o pó do rodapé

 

Entre as marias-fedidas,
voam saudades de você!

Maldiz o cheiro delas,
fedidas marias!

Enquanto na volta ao mofo preto,
o apartamento nos vicia
ao CO2 do dia a dia.


CRiga.




quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Approach

 

– Quer namorar, Fabi?
– Não, eu gosto do Agostinho.
– É... Agostinho, é?...
– Agostinho, eu gosto é dele. Não gosto de você.
– Não acho que seja uma boa escolha...
– O quê?
– O Agostinho.
– Como assim? Até parece que isso vai mudar alguma coisa.
– Então tá, Agostinho, Agostinho... Boa sorte.
– Obrigada, aproveita e se manca.
– Agostinho não é bom partido. Agostinho não...
– Larga mão! Para de ser invejoso!
– A palavra certa é ciumento.
– É inveja mesmo, dele. Se é ciúme, você tá perdido, não tenho nada a ver. Se manca!
– Olha, eu não vou insistir, mas Agostinho não serve.
– O quê?
– Não serve. Gosta de outra.
– Gosta de outra? O que você tá falando? Larga a mão de ser assim!
– Tá avisada. Agostinho não vai nunca querer namorar você.
– Ah...
– Ele gosta da Lídia.
– Que Lídia?
– A Lídia, lá do fundo. A Lídia, que se veste de preto.
– Magina, Lídia nada! Para de querer botar defeito!
– Defeito, eu? Lídia é bonitona, estilosa. Você...
– Eu o quê, fala!
– Você não é assim, é meio...
– Meio o quê, fala se tem coragem!
– ...sem graça, sabe. Não tem approach...
– Apoquê?
– Não tem approach. Agostinho gosta de garotas de approach.
– Garotas de approach...
– Ele também tem.
– Tem o quê?
– Approach. Mais que eu, inclusive.
– Onde compra?
– O quê?
– Approach...
– Ah, isso não se compra. Nem se consegue de uma hora pra outra.
– Então é só eu me vestir de preto também?
– Não funciona. É mais que roupa.
– Cor de cabelo?
– Mais.
– Jeito de andar? De falar?
– Mais, mais...
– Que droga, preciso de approach! Me ajuda?
– Em casa dá pra conseguir.
– Na sua casa?
– É. Lá tem approach. É chegar e ter.
– Vamos lá, vamos lá!
– Sairá de lá com muito approach.
– Vamos, vamos!
– Vamos... é.. sei não...
– Sei não o quê?
– Acho que vou chamar Lídia.
– Quê?
– Lídia, lá do fundo da sala.
– Mas ela não gosta do Agostinho?
– Quem gosta dele é você. Ela gosta de mim.
– De você?
– De mim. Acho que é o meu approach.
¬– Mas e você, não gosta de mim?
– Gosto mais dela. Ela tem approach.
– Ah, me deixa!

***

– Quer namorar, Lídia?
– Eu não gosto de você.
– Gosta de quem então?
– Não interessa. E você nunca adivinharia.
– E Agostinho?
– Que tem?
– Ele gosta de você.
– Coitado... Acho que não...
– Na verdade eu gosto da Fabi. Ela tem mais approach.
– Então por que me pediu em namoro, ô boboca?
– Pra fazer ciúme pra Fabi. Ela diz que você também tem um certo approach.
– Approach?...
– Approach.
– Ela disse isso?
– Disse sim…
– Disse isso de mim?
– Sim…
– Então eu topo.
– O quê?
– Namorar você.
– Mas você não gosta de mim.
– Não, eu gosto dela. Me ensina a ter approach?
– Dela, da Fabi?
– Da Fabi, da Fabi!...
– Mas Fabi gosta de Agostinho.
– E Agostinho gosta de você.
– Agostinho, como assim?
– A-gos-ti-nho. Gosta de você.
– Eu, como assim, Agostinho, como assim?
– É o seu approach. Você tem, me ensina!
– Eu? Eu não, não tenho não...
– Ah, váááá!...
– Eu não gosto de Agostinho.
– De Fabi é que não é...

***

– Quer namorar, Agostinho?
– Quem?
– Escolhe. Quem tem mais approach...

CRiga.