segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Setenta e três


Não consegue mais rugir. É uma leoa cansada.
Lutou muito na selva. Não tem cadeira de balanço.
Deixava a casa desarrumada.
Não me lembro de muito amor.

No começo corria corredores dos ônibus,
tudo limpo, trazia pra casa o pó do mundo.
Depois de novo subia andares,
guiando novos elevadores –
pra vida não tem mesmo guia de bolso.

Cansou. É uma leoa deitada sobre a relva.
Não tem cadeira de balanço mas tem um xale.
Não tinha tempo nem de se arrumar, um rouge.
Um dia eu acordei com ela me botando os sapatos,
peguei no sono antes da escola, ela não brigou.
Acho que isso é amor.

Para Ermina, minha mãe, que neste dia 10 de agosto completa seus 73 anos.

CRiga.


domingo, 9 de agosto de 2020

o dia dos pais


Quem me fez inseguro assim?
Eu preciso comprar uma guitarra
pro meu filho que toca violão.

Quem me tapou a visão?
Quem me deu a mão?
O jantar?

O violão quem me deu foi uma namorada.
Um dia um filho o quebrou na marra.

E o cara agora toca uma guitarra!

Eu quando quebrei uma coisa
só levei beliscão sim.

Quem me fez inseguro assim?

CRiga.


sexta-feira, 7 de agosto de 2020

O fogo, a chama


O fogo é bom,
mantém quente a cama da gente.

Cabe a nós atiçar a brasa junto à lenha
que a gente ainda precisa caçar.
Cabe sim a gente ver também
que tem gente que nem fogo tem.

Ou tem fogo congelado pela fome.
Comida gelada na lata do lixo não machuca –
fere mais quem esbraveja tendo teto
e alimento sobre a mesa.

Ou tem fogo contido por percalços genéticos.
Um filho que não conversa, não caminha
apenas assiste – é só amor,
mas difícil é acender fogueira qualquer
até pra comemorar um São João.

Ou nem sabe que o fogo queima –
quem não tem ninguém,
que não ama nem a si.

O fogo é bom,
mantém quente a cama da gente.
Acendamos a lenha, cuidemos de nós,
pra podermos cuidar de alguém também.

CRiga.

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Precisamos de novo nos apaixonar



Prefiro apaixonar-me novamente
pelo mesmo amado ser.

Preguiça enfrentar novos defeitos
ao relevar os que já conheço bem.

CRiga.

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Futuro sarau


Há um radar no teu olhar
que rima com a poesia que circula
no ar de uma futura canção.

Eu te direi aqueles versos ritmados.
O relógio já parado da academia
irá querer congelar atmosferas.

Na nota cravada play atention!
vou segurar o ar na hora do grave
e apenas levantar a sobrancelha direita.

Daí que o verbo atropela!
É flor vermelha no casaco
e um pedido de perdão.

Daí que a súplica singela
é dor que caminha em cada tecla
e morre no último si.

Me dá aí de novo tua atenção!
Aquele radar que o olhar esconde:
me procura onde a alma capturada
longe, só voando consegue fugir!

CRiga.


terça-feira, 4 de agosto de 2020

Ensaios de grandes amores


Naquele fim de mundo
eu só ouvia a tua voz me chamando
comparando cores
frutas
texturas.
Era como a pera da Cidade dos Anjos,
feito o morango de Caio Fernando Abreu.

No limiar entre a tristeza profunda
e um piscar de luz no fim do túnel,
você estava lá me indicando um caminho
que nunca ia mesmo dar em nada.

Mas fui te pedindo desculpas,
eu era aquele garoto bobo
confrontado no corredor da escola.
O amor era o mais puro que podia ser,
e eu simplesmente disse não
desviando o olhar
culpando amigos por uma pilhéria juvenil.

Eu era o pré-universitário que sabia
que me arrependeria
de não ter agarrado a tua cintura
e de não me afogar de amor
no eterno verde dos teus olhos.

Cantamos juntos até a bebida cair.
Viajamos de volta e na volta me perdi.
Dançamos a soul music, corpos quentes,
mas não desabotoei a tua camisa rosa
num sábado de um apartamento nos Jardins.

Dormimos juntos e você nua
saíste tão pura como a flor.
Roubaste meu beijo numa esquina
e devolvi meu calor pós-carnaval
num barzinho esquecido de Pinheiros.

Redescobri o Brasil pelos teus olhos azuis
mesmo sabendo que havia
um oceano entre nós.

Aquele fim de mundo ensaiava
romances
no asfalto que ruía
no mar que me engolia.

Enganei a morte nos atalhos,
a sorte sempre quis me dar
um novo grande amor para contar.
 
CRiga. 

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Cumplicidade, simplicidade


Porque quando eu fico o louco
o pouco que quero não é guerra,
é só fazer uma poesia.

Só a paz dos discos
voadores vinis de uma briga
que já não ouço mais.

Uma viagem de volta sempre é necessária.
Te devolve as coisas e as sensações
que valem a pena carregar.

Você sabe que a paz também é singular.
E que as pazes são plural.

A gente não erra!
Rima bota a roupa no varal
com põe esta poesia pra concorrer.

CRiga.