quarta-feira, 8 de abril de 2020

Cuidando


Agora que eu tenho a tua atenção
deixe-me dizer das coisas
que se deixam escorrer pelos dedos
enfermos pelo tempo
tocaram teus cabelos
eu pintava os teus cabelos
quando você pintava em minha cama
a chama era sempre a mesma
lembra da nossa pose na lente?
a gente não tinha muitas preocupações
além das menstruações atrasadas
a gente arrasava!
a gente não se cansava de se falar ao telefone
a gente não se cansava de se ver toda a noite
o dia que desagarrei da tua mão eu me perdi
eu te pedi perdão e você perdoou
mãos dadas entretanto outros dedos outras histórias
era a hora de te esquecer.

Tua atenção agora
que eu não tenho mais você.

CRiga.


Fica... (um sonho)


O passado às vezes vem à velha casa
com o mesmo rosto jovem de outrora.
Você sabe que não pertence mais a ele
nem pode dar corda ao amor que o moveu.

Mas ele vem, sorri,
se faz atencioso novamente
e você pede perdão
e quer saber se o verá amanhã de novo.

Não, não verá.

O que resta é o seu rosto desenganado
e aquele ar de anjo que perdoa
plantando uma lágrima de saudade
no travesseiro ainda quente.

O que resta é acordar pela manhã
e tomar o café preto, sozinho,
com o sabor amargo de um velho amor
que não volta nunca mais.

CRiga.


terça-feira, 7 de abril de 2020

Aquele cara dos dedos finos


Sobrevive
à procura de uma nova história de amor.

Desce o escadão de madeira que range
a idade da casa velha,
mais uma garrafa de conhaque a tira colo.

Para em frente ao piano desbotado.
Contempla o porta-retratos,
aquela linda e besta felicidade juvenil.

Senta-se à banqueta de couro ressecado,
o cálice trincado perdido na atmosfera.
Amareladas teclas – até um bom vinho francês
já manchou reputações.

Um indicador maceta o marfim, débil,
ensaia apenas uma melodia sem nexo.

O sexo dos anjos.
A solidão dos deuses.

Num gole mata o conhaque
num ímpeto baixa a guarda do teclado.

A madeira soa todas as notas graves do abandono.
A brisa agora é o cheiro da chuva que chora
um amor que nunca teve rosto.

Mais uma noite –
a morte sorri sedutora na varanda.

CRiga.


sábado, 4 de abril de 2020

Pelas tangentes


Você segura a víbora com as duas mãos
abaixo da cabeçona dela,
olho no olho
evitando o veneno do bote fatal.

E com a força vital que ainda te resta
resiste e testa
a arte de sobreviver.

CRiga.

quinta-feira, 2 de abril de 2020

Praia do Forte


Foi quando eu quis capturar o teu olhar
fazendo o tipo alma do mundo
totalmente careta por você.

Mas era verdade, eu empunhava
uma certa paz impregnada até na roupa
depois da guerra rasgar os meus trapos.

Caminhamos madrugada em direção à praia
e no primeiro sol do dia sorrimos juntos num beijo
naquela ilha de perder noção do tempo.

Havia guerras (duas guerras e centenas de batalhas)
que nas pegadas se deixaram dormir na areia
levada pelo vento da curva no monte.

Areia que não volta nunca mais
feito jura
que a natureza te devolve na brisa.

CRiga.

“Quem sabe isso quer dizer amor
Estrada de fazer
o sonho acontecer”

(Bituca e Lô)


Em uma nota, só


Em cima do piano
um copo de veneno.

Piano da sofisticação
pretão, sério demais.

Embebido morreu em si
menor.

CRiga.

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Por que digladiar-se?


As coisas te acontecem deslizando a pele
feito areia na duna
feito pedra na avalanche.

Até as pedras podes conter
com a calma da consciência.

Até a areia pode te afundar
com as tempestades que tu fazes.

No final são tudo pedra a areia
que pavimentam o caminho à frente.

No final a gente sobrevive
e colhe mais um grão de experiência
quando olha o caminho para trás.

CRiga.