sábado, 7 de dezembro de 2019

Relógio atrasado


Esta é a hora mais triste.
A hora que cessa a luta
e que cai a linha de chegada.

É a hora em que os olhos se abaixam
a lágrima rola
e ensandece a tempestade.

É a hora em que tudo se faz distante.
Hora em que a respiração ofegante
dá lugar ao suspiro último do cansaço.

Esta é a hora
de esquecer você.

CRiga.
(Caderno Azul, 1997)


sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

Proibido colher flores


Daqui só vejo o cinza do asfalto
onde apenas pombos sujos
decoram a melancolia.

As poucas árvores que há
são bonsais de estimação
quase engolidas pela “paisagem” –
palavra demais bonita
não combina com a cidade.

Olhos vidrados no movimento dos carros.
Pássaros maliciosos cortam a travessia
mudos – ou o barulho suga seu palavrão
contra o carro do ano
em excesso de velocidade.

Procuro sobreviver nisso
que se convencionou chamar-se de selva.
Preferiria procurar cipós pra doce amiga
artista que molda apanhador de sonhos.

Procuro o sentido de Manoel de Barros
mas aqui a simplicidade está apenas
na placa que me proíbe
e não me explica
por que não posso colher as flores
do jardim da Prefeitura.

Para os amigos Andreia Medeiros e Danilo Amélio

CRiga.
(foto de Flávio Costa)

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

Letras raras


Tenho vergonha de expor tristezas,
recônditos incompreensíveis.

Ninguém compra a flor que começa a murchar
deixando um perfume de morte no ar.

A maçã com aparência da pele idosa
mas ainda saborosa
dependendo do desejo dos dentes
e da língua.

Há na garrafa empoeirada do boteco do Centro
impregnada a história de um dia
em que o alcoólatra era um cara legal.

Há na foto desbotada colada no relicário
aquele mais doce segredo
que o viúvo já esqueceu.

O casaco que arranha a pele no brechó
já aqueceu um poeta em seu auge.

O vinagre já foi vinho
e a cruz a redenção –
mas o padre desistiu.

Hoje não tem missa
porque o coral do corpo de Cristo
se vendeu ao rock inglês.

E a multidão no estádio grita
a feliz unanimidade
de um ingresso muito caro.

Raro
é o pulso magoado
escrever um dia melhor.

CRiga.



quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Pedras no caminho


Chuto uma pedra
como quem quisesse
atirar para longe
todos os problemas
e me machuco mais.

Fugir dos problemas
é como chutar uma pedra
de esmeralda mal lapidada
e ignorar uma vida melhor.

CRiga.
(Caderno Azul, 1997)

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

O vale escuro


Aquele profundo puxar
e soltar de ar.

Você não vê o abismo dentro dos olhos.

Uma cordinha te segura,
pescoço a prêmio.

A pele vermelha diz mais que o âmago amargo.
Mal-amado. Paga dívidas pesadas.

As asas imaginárias foram quebradas,
amassadas.

Dentes trincados à boca aberta no asfalto
malcuidado, cheira a mijo de mendigos.

Amigos são rimas que não rimam mais.

Aquele profundo não sei o quê
atalhos perdidos, um vagar vagabundo.

Um mundo inteiro pra se preocupar
e uma vontade imensa de dormir, sonhar.

Fugir.

Apenas boiar.

CRiga.


segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Saudosismo na ponta da língua


Há na gente essa língua lambendo,
dente mordendo lábios. Vontade.
Jazz do bom.

Concentração no trabalho.
Sensação de ser paralelo,
professor, reaprendiz.

Há um olhar no imaginário horizonte,
a busca pela juventude com respostas.
Tuas costas sobre meu peito,
a transa no verão.

As mãos dadas são sinceras,
não tenho mais olhos pr’outras belas,
é verdade, meu amor, são só pra você!

Enquanto a gente aprende o encaixe,
os garotos quase na adolescência
voltam a curtir o Lego guardado
no guarda-roupa sempre mofado.

É que só quero escrever uma poesia
que não me comprometa mais um dia – 
hoje resolvi ser resolvido!

O entalhe do punhal sobre o cedro
é o mesmo da faquinha fajuta do 1,99.
Corta pra gente o pão de hoje,
alimento do sempre
o mesmo bom antigamente.

CRiga.


Morrer de amor num filme de ficção


Vou quebrar os teus cristais.
Rasgar o teu retrato.
Amaldiçoar o teu nome.
Dizer mentiras sobre ti.
Roubar as chaves da tua casa.
Queimar a tua casa!
Vou passar pelo beco escuro
negar a esmola, olhar com pena.

E finalmente
não irei ao teu enterro,
porque ao lado do teu eterno leito
enterrado há muito muito tempo
eu já estarei te esperando
com flores e um novo roteiro
pra juntos a gente encenar.

CRiga.
(Caderno Azul, 1997)