quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Cigana


Não poderás mais escrever poemas,
pois tuas mãos ficaram entre as minhas pernas,
e dentro de mim compunha
o que poeta nenhum ainda conseguira
descrever em simples palavras.

Não poderás mais cantar tuas canções,
pois tua língua ficou nos bicos dos meus seios,
na minha língua, nos meus lábios,
boca, pescoço, peitos, ventre, púbis,
até a eternidade!...

Não poderás mais ver o pôr-do-sol,
pois teus olhos viram meu espírito
viver no teu corpo e sentir a tua carne,
chorar de prazer quando me tocavas
e de tristeza quando partias.

Tenho certeza, não poderás mais nada!
Por isso sei que voltarás para buscares
tudo o que te pertence.
Inclusive eu.

CRiga.


quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Ele não era um cara legal


Ele não é o cara
dos grandes feitos.

Nem o cara
que tudo arranja.

Ele não é o cara
que conta piadas.

Nem o cara
que vai salvar a festa.

Ele não é o cara
do tapa na cara.

Nem o cara
pacifista da manifestação.

Ele não é o cara
que toca guitarra.

Nem o cara
que gosta da sua música.

Não é o cara
da esquerda.

Muito menos o cara
da direita.

Não é o cara
da moda.

Nem o cara
popular da roda.

Ele é o vidro que corta
em vez do falso brilhante.

CRiga.

terça-feira, 5 de novembro de 2019

A canção da chuva


Quando ele decidiu atravessar o oceano louco, era pra fugir mais de si do que da ausência de si. Era aquela cidade cinza que piorava as coisas, principalmente quando o inverno chegava mais frio do que em qualquer outro lugar que já esteve. Se bem que, atravessando o oceano louco, o frio talvez fosse maior, aquele frio que a gente vê pela tevê em Londres, Paris e outros lugares que parecem se renovar a cada sonho nosso de estar lá. “Mas aquele frio tem charme, é um frio que a gente se sente protegido, por isso eu vou!”

Seu sonho também era renovado, deixava para trás o que de si não gostava, culpa daquela solidão das capitais. Resolvidas todas as pendências burocráticas – e até algumas parecidas com as emocionais também –, estava pronto pra ir, castigar aquela cidade cinza que nunca lhe dera nada. Nem mesmo aquele amor prometido a cidade lhe presenteara, aquele amor que faz a gente fincar o coração mesmo numa terra estranha e sem graça, por amor valia a pena qualquer coisa. Mas o amor era só uma promessa, uma piada estranha e sem graça, era prato feito de restaurante, enlatado de supermercado, um rock de gente séria e sem sangue – “É tudo gente vampira!”

Passagens compradas, data marcada, só voltaria para visitas quando estivesse seguro que vencera a cidade cinza –  ou talvez nem voltasse. “Pra quê? Ninguém me espera, não espero mais ninguém”. Na correria de arrumar as últimas coisas, entre barbeiro, roupas novas e um som pra curtir – disso não dava pra abrir mão! –, conheceu uma garota, mais uma garota da capital. Sorriu, disse oi, trocaram nomes e telefone, e rolou como sempre acabava rolando com todas as garotas.

Só que no outro dia ela ligou, fez visita, arrumou o apartamento bagunçado dele – ele dividia o aluguel com mais dois amigos –, sorriu, chorou, cantou, bebeu, beijou, e não esqueceu! Foram dias assim, os últimos dias, intensos como a despedida de sua terra natal, fazia muito tempo. Mas era como se agora a despedida não fosse tão boa como era até então, quando fugir era o que valia.

Ela era incrível! Chorava com música bonita, ria das atrapalhadas dele, sorria pertinho da boca dele como que respirando o ar de seus pulmões, fechando os olhos e tocando os lábios macios, aos poucos, até o beijo suave. Depois, puxava ele e tirava a roupa, corpo lindo, e eles faziam o amor que ele não conhecia. Depois, fumava um baseado, colocava outro CD, cantava junto com os olhos fechados, a cabeça balançando, como se ninguém estivesse vendo.

Mas ele via mais do que queria ver, ele via o amor que a cidade cinza um dia prometeu. “Mas você vai embora, que pena, então vamos curtir um pouco mais...” Com ela, ele esquecia que teria de atravessar o oceano louco, ser “feliz”, simplesmente. “O que é ser feliz, então?”, estava confuso, ficou com raiva de si. “Tá tudo pronto, gastei toda minha grana nessa viagem, isso só pode ser uma brincadeira do destino.”

Não era, e pegou-se pensando nela, na música dela, no sorriso dela, no seu corpo nu, sentada à cama, balançando a cabeça com os olhos fechados, acompanhando “aquela música da chuva do Led”, enquanto lágrimas rolavam de seus olhos cerrados no final, quando o Plant gritava “but I know, that I love you so...”(*). Pra ele, nada daquilo era igual às outras pseudo-aventuras da cidade cinza. A coisa ficou mais séria, quando até chegou a brigar com os amigos do apartamento porque bagunçaram tudo o que ela tinha arrumado. Ele a defendeu, e ficou completamente sem defesa...

O pior que, na verdade na verdade, ele queria era novos ares principalmente porque acreditava no amor, e a cidade cinza não lhe dava a oportunidade de amar ninguém. Eram todas as aventuras filmes sem nexo, em preto e branco, chatos demais. “Aqui não é o meu lugar”, repetia pra si como um mantra, pra se convencer, e culpava os inocentes de serem demais culpados cibernéticos, porque nunca nunca, “que droga!”, havia sentido o calor daquele sorriso dela, daquele beijo dela, daquele choro, daquele riso... Nunca tinha ouvido uma música tão bonita, ou nunca tinha percebido como eram bonitas as músicas do Led Zeppelin... E nunca foi tão mais frio, quando chegou o dia de partir... “Maldita cidade”, só lhe dera o grande amor quando decidiu abandoná-la com seu cinza, sua semgracisse, seu frio seco e morto.

Pernas moles no hall do aeroporto, ela disse que viria pra se despedir. “Não vou resistir...”, pensava que poderia jogar pro alto essa coisa de atravessar o oceano louco. “Chance assim não deve haver nem em outro continente...” Mas ela não vinha, demorava demais, e já chegava a hora de ele embarcar. “A gente precisa conversar pra eu me convencer (porra, isso é música do Ritchie), por que ela não vem logo? Como vou ter certeza? Como vou embarcar nessa? Como foi que eu embarquei nessa?”

E ela não vinha, “ela não vem... melhor assim”. E seguiu o corredor, já era a segunda chamada de embarque. Aquele dia chovia mais do que os outros dias anunciando o inverno. “Foi tudo um sonho. Amor assim não pode existir, justo na hora de partir”. A chuva desafiava a vidraça do aeroporto, e cada passo passava mais firme, mais compassado. “Agora não dá para voltar atrás. Adeus, adeus!...”

Pela janelinha redonda daquele boing enorme, viu duas mãos grudadas nas janelas do hall do aeroporto, onde as pessoas se despediam dos passageiros, ou simplesmente ficavam vendo aviões decolarem. Mãozinhas imóveis, ela não se despedia, só olhava, não ria nem chorava. A cidade ficava mais cinza, e ele quis acreditar que são as pessoas que colorem seus dias, ele podia colorir. Só que então por que ele nunca se esforçou nas tintas que tinha, sempre preferiu se defender e culpar o mundo?

Agora, o apocalipse calado, olhando do hall, palmas estateladas manchando o vidro com suas impressões digitais, fones de ouvido e um walkman, e ele tinha a impressão que aquilo não era uma despedida. Era um filme, um filme cuja única cor eram seus olhos brilhando verdes do hall, era seu vestido chita azul e seu casaco marrom de lã de ovelha – a chuva, o inverno! “Que inferno! O avião podia quebrar, forçando mais uma espera dos passageiros por pelo menos meia hora, que fosse, o suficiente pra eu me convencer.”

As turbinas ligaram, o avião começou a taxiar pela pista, preguiçoso, em câmera lenta. Uma cabecinha acompanhava lá do hall, sem sorrir, sem chorar. E ele viu então os olhos dela se cerrarem, e a cabecinha acompanhar uma canção. Na fita cassete do walkman dela, o Led rolava triste, na explosão das guitarras e bateria – “I felt the coldness of my winter/I never thought it would ever go/I cursed the gloom that set upon us/But I know, that I love you so/But I know, that I love you so...” (*).

E ele viu os olhos cerrados, viu mais uma vez as lágrimas dela que corriam no final do refrão, enquanto o bichão de asas de metal levantava. “But I know, that I love you so”. “Adeus, adeus”, este filme não poderia terminar diferente, com chuva e cinza. “Adeus, minha música sempre foi triste, triste assim...” A cidade cinza sempre foi triste, ele sabia. O adeus silencioso e imóvel também era. “Mas sei que te amo muito... adeus, adeus...” Um dia a tristeza vai passar, ou vai voltar, doer, quem sabe... “Agora, só o velho continente me espera, com um novo rock and roll. O velho continente precisa ser novo, novo rock and roll!”

No hall, ela secou as lágrimas com as costas das mãos macias, e sentia-se tão rouca e cansada como Plant no final da canção. A música cessou, e a chuva cessara também naquele entardecer, enquanto o avião levantava vôo, levava ele pro outro lado do oceano, enquanto o bichão ficava cada vez menor e sumia no pôr-do-sol, um sol brilhante, onde foi o frio?

“O frio foi embora, e ele também já se foi”. No lado B do cassete no walkman dela, já rolava um velho rock and roll. “As pedras vão rolar. As pedras precisam rolar!...”

(*) “The Rain Song” – Led Zeppelin

CRiga.


segunda-feira, 4 de novembro de 2019

O inimigo vem para o jantar (a canção de um sonho bem real)


Durante a ceia escassa de nossa aldeia
Você trouxe o vinho da bebedeira
Brindou como um velho amigo que voltou.

Na noite do nosso sono confiante
Você portou-se como um amante
Roubou o ouro e apenas acusou.

De manhã jogou o velhinho de lado
Cercou o jardim com arame farpado
Botou soldado raso vigiando as flores.

Meio-dia tomou a casa de assalto
Gritou “todos de mãos pro alto”
E fez seu escritório em nosso quarto.

Daí
No novo almoço fez ode à tirania
Enfiou goela abaixo uma soberania
Prendeu padre, parente e vizinho.

Daí
Rasgou a Bíblia e a Constituição
Sorriu arrogante na televisão
E deu de ombros ao que estava escrito.

E aí?
Como aceitar o novo inimigo?
E deixar solto o velho bandido?
Ignorar a verdadeira paz?

E aí?
Como acreditar no falso profeta?
E encarar a face do poeta?
Os nossos dias já não voltam mais.

CRiga.

(Sonhei com invasão de marcianos
e acordei com um Brasil
depois das eleições...)


domingo, 3 de novembro de 2019

Quinze anos


É como ser obrigado a esquecer
aquele seu grande amor
que um dia foi eterno, Vinícius.

Seu grande amor:
você vê,
ele simplesmente está indo embora!...
Sim, é aquela hora de ter que esquecer.

Já te doeu
ter que esquecer de alguém?

É assim, Drummond:
parece ter que deixar Mariquita
fumar seu pito em outra festa.

Nem me lembro quando fiz meus 15...

Mas para sempre vou lembrar
dos quinze de Caetano –
o nome que eu escolhi para você.

CRiga.


sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Burra unanimidade


Você não ajudou a mudar o mundo!

Então...
Mas ninguém me chamou...

A coisa tava acontecendo,
só burro não tomava a charrete!

Então,
até que me chamaram.

Mas eu não fui
e eu estou aqui
para contar a minha história.

CRiga.


Cabra cega pode enxergar


Sabe como você identifica
um colega que tá perdido
naquele lado errado da confusão?

Aquele que na cartilha mete,
no meio da frase,
um presidente de letra P.

CRiga.