sexta-feira, 12 de julho de 2019

Descansar carregando pedras


Luzinhas de Natal pouco dizem, meu amor,
Papai Noel é apenas um lenhador operário
e minhas florestas não dormem mais
não são os verdes da prometida paz.

É o que faço: marreto certeiro com a machada,
corto com calma, carinho e distraído
as esperanças que não são minhas.

Depois planto planta de verdade
porque ninguém mesmo vive
só de vender lenha pra queimar.

CRiga.


Pequeno sarau


Somos apenas nós mesmos,
então destranque seu Drummond
de volta à fogueira.

CRiga.

Para sempre brisa


Há sempre quem te apresente salvadoras luzes,
possíveis interruptores na parede de nuvem.
Quem te ofereça participação na prece,
se apresse, ele pode morrer sem tua postiça fé.
Há até quem te ache a fonte das bonanças,
do “tá tudo sempre certo, não se preocupe”.

Não.

Luzes de Natal não me orientam,
apenas enfeitam o garrafão psicodélico.
Tenho fé é na pedra que se move
sem precisar da fé que move montanhas.
Tá tudo sempre certo, bem perto
de você não estar me dando no saco.

Sim.

Posso não ter as receitas mágicas e mesmas
de todo final de ano que precisamos encarar.
Tenho apenas o passo, a vontade retesada,
o peso de nenhuma idade,
de nenhum compromisso.

Por isso me desculpe pela mesa nunca pronta,
por planejar apenas como não muito te decepcionar.

Eu sou apenas um ensaio de esperança,
um sopro do planejar da rota.
Anota meu recado se precisar:
eu não sou santo muito menos anjo,
mas não sou o mal gosto
da tua ceia que não deu certo.

CRiga.

O morro que não é mais nosso


As mazelas esperneiam
e o esperma corre as pernas.
É quando o triste fecundador
desiste do mundo mundano –
um bebê morre anjo
feliz angelical.

As janelas estão fechadas
e os beirais têm rosas secas.
A cidade está de olhos cerrados,
fingindo um sono, talvez embriaguez,
para aliviar a dor.

A luz da tevê ilumina um barraco,
e o cheiro do jantar se mistura
ao pó da casa fechada
em pleno verão.

Os gritos daquelas crianças
estilhaçando as alegrias de infância,
hoje fazem parte da canção de ontem
no vinil velho comido pelo tempo.

O batom que era da camisa de seda
virou sangue de execução na mesma esquina,
onde cantava a boemia
uma vida mais bonita.

Aquela seresta virou faroeste,
e o oeste virou medo no pôr-do-sol –
é quando morre na esquina
mais um inocente trabalhador.

Não há caminho de volta ao lar –
há via crucis no chão de terra batida
onde Cristo podia bem ter caminhado,
não fosse a cruz virar arma branca
pra dar na cabeça de bandido
e de penhora à polícia.

Não há caminho aos novos fecundadores –
o espermatozóide tem medo da missão
e canta assoviando uma musiquinha
sucesso de antigamente,
pra disfarçar sua tristeza
de ter que dizer não.

CRiga.
(foto de Antonio Lacerda)

quinta-feira, 11 de julho de 2019

Sob o mesmo teto


Há sorrisos e concessões, dúbio silêncio.
Há colunas que aguentaram o teto em pé
suportaram o terremoto dos erros
na velha casa hoje habitado mausoléu.

Já no teto do céu nem as estrelas são as mesmas.
Ela observa a noite escura
esperando se apaixonar de novo
por alguém.

Duas camas. Dois quartos.
Dois fantasmas se assombrando
quebrando espelhos em eternos anos de azar.

CRiga.



Entre os lábios


A língua draga com fogo de dragão,
beijo que chupa a pele do pêssego morno
ou boca caindo de boca
na doce manga de estação.

CRiga.

sábado, 6 de julho de 2019

Deixe estar


Esse frio é tão clássico
como Let it Be.

É a procura pelo dia
em que necessário de fato será
não precisar provar nada para ninguém.

CRiga.