sexta-feira, 21 de junho de 2019

Procissão


Destrua os olhos roxos
querendo esconder pecado.
O mais pecado dos pecados –
ousar não ter pecado.

O suor do santinho a caminho
daquela fontezinha artificial
não purifica o asfalto caro
amanhã forrado de santinhos
de campanha eleitoral.

Os fogos do céu são bonitos
tão bonitos quanto o fogo
debaixo das saias das meninas.

Não creio em fonte, creio no fogo
que não mente nos olhos roxos
que não sente por pecar
e que vive santo, sem machucar.

O pecado mora aqui mesmo
não precisa procurar ao lado.

CRiga.


terça-feira, 18 de junho de 2019

Rocha lisa (canto do desencontro)


Duro é quando a água para
de bater na pedra,
e você tem tempo de querer sentir
nos olhos o sal.

O mar secou, diria Drummond.
Eu não sou duro, José.
Eu sou a água
que parou de bater na pedra.

Eu sou também a pedra –
rala lisa nua de cara exposta
ao vento cortante que vem num assovio
do leito deserto um dia mar.

De repente a onda (eu espero)
vai me levar.
Explodir como nos pesadelos.
Daí posso ver teu rosto refletido na lua vermelha
enquanto submerjo levemente morto
no mar do desengano.

Mar tranquilo sem tempestades
tubarões e godzillas.
A tal da bonança.

Quando tarde demais os escafandros descobrirão
uma carta borrada no bolso do surrado jeans –
apenas uma poesia pra você, nobre arqueologia!
O dia em que eu finalmente decidi
te procurar nos versos que não saíam.

Pois duro era quando a pedra rolava o penhasco
e você, na beira do precipício,
me esperava encontro marcado.
Sempre nos desencontramos...

Eu não honrei canções...
Não te esperei feito pedra postada à beira-mar.
Eu me gastei. Virei cascalho. O vento me levou.
O mar voltou a ser o mar.

E você, aros pretos nos olhos cansados
da lua vermelha,
resolveu sangrar a lágrima
que meus olhos não conseguiram chorar
àquelas tardes.

E era muito tarde.
As letrinhas já subiam
dando os créditos no final do drama.

Quem ama em silêncio
encrudesce a poesia...

CRiga.

segunda-feira, 17 de junho de 2019

Quermesse


Vida besta esta de procurar preocupação.
Bom é procurar no inverno novo
um tempo antigo de curtir no frio
o mesmo couro da velha jaqueta.

Vem que hoje tem fogos de São João
vinho quente e quentão.
Tem é fogo também debaixo
das saias das meninas –
por isso é que não sentem frio
nem nossos corações partidos.

Mas as intenções são as mesmas.
Uma Maria quer casar
uma Joana viuvar.
Quando Zé pescar o prêmio
a namorada vai enciumar.
A prima da cidade quer ursinho
e ela tem lindos olhos de um verde
que nem a bandeira do Brasil!

CRiga.


sexta-feira, 14 de junho de 2019

Corrosão


Estamos em falta, mas você ainda sorri.
Talvez hajam dedos que nos enganem
sejam aqueles sobre os teclados
ou por baixo dos pijamas.

Os sóis também enganam.
A alma está congelada
perdida na estrada
presa na gruta, no escuro,
não grita, paralisada.

Você despeja areia de ampulheta
sobre meus ombros.
O sorriso é de pena?
A paciência é de ouro?
O amor é que nos prende?...

CRiga.

quinta-feira, 13 de junho de 2019

Assaltaram a gramática


Azidéia, minha querida!
Ainda com a, cento –  
sinto que revolucionárias
mais de cem ainda fervilham.

Pelo menos o velho verbo flexiona
o bom sujeito que um dia eu fui.

CRiga.

quarta-feira, 12 de junho de 2019

Deep sorrow


É um corvo velho depenado
no subterrâneo frio do centro da cidade.

Seu ópio é combinar cores na salada
nos dias de semana.
Suas mãos têm o odor do almoço pronto.

Seu hibernáculo captura novas melodias
pra ouvir-se profundamente
silenciosamente só.

Seu amor pra dar é um pedido eterno de perdão.
Seu sono agrada porque o transporta
a outro lar que não um pseudo escritório.

Seu amor precisa de amor, mas não quer.
Seu sono é longo e quase eterno
câmera lenta que perturba.
Um inferno com sofá pra cochilar.

Nunca vai pedir o desvio do teu olhar.
Cansou de ser cansado
não quer direito de descansar.

Precisa não apagar sorrisos, talentos.
Os medos são contados nos dedos de uma mão.
Dedos finos, medos grandes –
no caminho que apontam
há sua cruz desacreditada.

Não tem direito de chorar,
mensagens prontas obrigam a agradecer.

É um fio do tapete farrapo à porta trincada
da casa condenada pelo tempo.

Santos andam sobre as águas,
heróis voam vigiando os bons.
E ele sabe muito bem que é.

Será que consegue afundar?
Será que consegue cair?

Não consegue. Nem chorar.

CRiga.

terça-feira, 11 de junho de 2019

Dó, Si


Eu não tive o brinquedo que pedi.
Mas vi meu Noel sem jeito
quando contava migalhas do seu bolso.
Ele era muito bravo,
um adulto de dar dó.

Eu comi o x-salada que queria,
ela sacou da condução a ficha no caixa.
No balcão da lanchonete a coca veio quente
pela metade oferecida
por um adulto amigo talvez com dó.

Eu vi meu vô pelado na sala.
Ele assoviava, nu com sua dor.
Criança, eu não sabia
o que era sentir dó nem sentir dor.

Eu com dó de mim, matreiro trapaceiro,
minha vó prometeu me defender:
bola de meia em cheio, vidraça quebrada!
Mas quando mamãe chegasse cansada
não brigaria comigo não.

Dó, ré, mi.
Faz um favor pra mim?
Canta um sol melódico
lá naquele meu futuro melancólico?

Pode ser a partir de si.
Seja lá o que for
sem assim tanto dó de mim.

CRiga.