segunda-feira, 10 de junho de 2019

Todo dia ela faz


É que eu não estou para romances.
Mantenho estandartes da seriedade
os meus óculos de grau.

Natural que faltem versos, prosas.
Nem tem a ver com espelhos
ou mensalidades da academia.

Corpo padece mesmo
é no cordão da multidão
é na falta de inspiração
é quando o pão vira o dia
perfeito na verdade do não.

CRiga.

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Sonhar com mortos


Era então aquele mesmo sorriso da juventude que eu perdi. Passou fingindo-se distraída, quando vi teu rosto e os aros pretos me chamando num abraço, num beijo, o brilho! “Tem certeza?”. Eu tinha!

Outro dia voltei a te procurar, agora eu fingindo assuntos importantes. Você deu novamente a luz da graça, agora amiga conversando num sofá de uma casa de um antigamente na sua vila. Mas esperando minha certeza vociferar leões. Tudo ficou bem, apenas uma visita de bons amigos novamente, eu saí triste como naquele corredor da adolescência em que eu disse não...

Desde então não sei – durmo esta vida, acordo sonhando, sobrevivo. Não sei se coloco na vitrola aquela nova música francesa que tem a cara da manhã que não tem você. Ou se falo a língua morta de te fazer vir de novo me visitar, antigo amor num sonho, com gosto de café amargo pela manhã...

CRiga.

quinta-feira, 6 de junho de 2019

A vida cavalga


É o inverno que muda as coisas, me faz lembrar de você de novo como se eu fosse a culpada por não ser feliz. Talvez seja mesmo, talvez você nem se lembre mais de mim, então remexo velhos pertences e não me encontro, só encontro você. Remexo números, não te encontro, ligo à telefonista, simpática, quase chora comigo, esses homens que nos esquecem são foda... Esse é o número mais próximo, então ligo, você não está mais lá, mas alguém diz “ele está em tal lugar”. A telefonista me dá então a porra do número do tal lugar, sem certeza penso te encontrar, alguém atende pelo teu nome, te encontro, é você, meu antigo amor!

Simpático como sempre! Casado, mas simpático. Com um filho, mas tão amoroso como sempre. Mudei de casa, você não sabia, e você me disse que foi me procurar numa noite com flores e vinho às mãos, e que por isso não me encontrou. Mentirinha bonitinha, me conquistou. Que saudades de você, do seu beijo, do seu abraço, do seu amasso. Acho que aproveitei pouco, muito pouco, não te dei devida atenção, eu sei, me arrependo, sou libriana, quero tudo vindo, quase nada indo.

Mudei de jeito também, você não sabe? Não saio mais em tantas baladas, parei de fumar, me conheço mais, gosto mais de mim, estou só um pouquinho mais gordinha, sem tanta diferença, acredite, estou mais bonita. E não cavalgo mais, você acredita? Eu também. Só falta você pra completar, mas não tenho coragem de dizer. A vida cavalga, eu parei.

Determinado momento você disse que é importante agarrar as chances quando elas vêm. Não esperar que aconteça, apenas estar esperta para a hora que acontecer. Sei que não foi por querer, mas parece que isso me feriu lá dentro, sem você perceber. Eu sei que não foi por mal, meu amor, nada vai me fazer tão mal quanto esta vontade de te pedir desculpas sem tempo, essa vontade louca de voltar no tempo e te agarrar, esperar que aconteça e estar esperta para fazer acontecer.

Bem, me ligue um dia também. Vamos sair, quase eu disse, tomar um chope, você não pode, agora tem família e não vou insistir. É errado, nem sei se tenho coragem. Acho que teria, te beijar de novo como antes valeria. Matar-me mais um pouco por não ter você, recriar-me por segundos eternos nos teus braços que um dia me tiveram mulher.

É o inverno que muda as coisas assim, faz a gente amanhecer cinza com saudades do passado que passou entre os dedos, feito areia de ampulheta que a gente não agarrou. Eu te amava e não sabia, me perdoe, meu amor. Seja feliz, seja feliz, vou desligar. Eu ainda tenho a poesia que você fez pra mim, preciso desligar pra não chorar. A vida cavalga, eu não mais...

CRiga.

quarta-feira, 5 de junho de 2019

Dias eternos de amores modernos


Lídia olhava a caixinha de música quebrada. Deveria chorar, mas não chorava. A bailarina manca e a música desafinada já não afetavam mais.

Lídia não esqueceu o batom vermelho na bolsa, nem o preservativo comprado, em segredo, naquela farmácia de esquina. A inveja da solteirona do balcão podia denunciar. “Foda-se!”, palavra da moda.

Lídia deixou pra trás uma vida de menina. Perdeu vontade de chorar por brinquedo quebrado, perdeu a atenção nos bordões da mãe, perdeu a doce virgindade lenda das conversas de chá da tarde.

Enquanto destoava nos gemidos, misto de dor e de novo prazer, uma bailarina manca fazia as malas. Não havia príncipe nessa história de amores perfeitos, porque nem Lídia esperava telefonemas de dias seguintes.

Nem mesmo aquele soldadinho de chumbo, herói de outrora a declamar poemas ao pé da caixinha, havia mais – perdeu uma perna na guerra da puberdade, e aposentou-se beberrão numa cadeira de rodas pela cidade dos brinquedos fantasmas.

E o amor, descrito num velho livro de contos de fadas, agora apenas mascava chicletes despreocupado, parado na chuva com guarda-chuva furado, esperando um ônibus qualquer.

CRiga.


terça-feira, 4 de junho de 2019

Agenda


A tela em branco me desafia:
mais um dia eu preciso te dizer
que a vida precisa de poesia.

Nem que seja assim pueril
rimas pobres, versos fáceis.

Florezinhas coloridas num vaso
no beiral da janela antiga
da ruazinha de paralelepípedos
da cidadezinha que a gente imagina.

Um rosto antigo que vem nos visitar
um espírito que mexe a gaveta na madrugada.

Mãos dadas num sonho meio amargo
chocolate guardado, as dores pela irmã querida.

Frio desafio, notas coloridas
na doce sexta de inverno.
Mais vale forçar o pulso e deixar-me leve
que morrer no tráfego a caminho da Capital.

CRiga.


segunda-feira, 3 de junho de 2019

Demônios me visitam


Eu bebo um gole.
Esta vida não me pede muito mais
do que isso agora.

Não sei de trilhas
atalhos ou trincheiras –
cedo ou tarde a hora chega
e eu não vou ficar contando estrelas.

O corpo que ferve já nem sente
as unhas que procuram frear a pele
que denuncia um mal que dorme.

Quero logo terminar as obrigações.
À noite sei mais de mim, não saio,
fico em casa, talvez um rock
e mais um gole.

Eu fico em mim com a certeza
que sei fazer o que me proponho,
mas não sei controlar as feras feias
que forçam as grades
como a Monga do Playcenter.

Minha pele são as grades.

Esta vida de criação cristã
me fez ter medo de lobo mau.
Ele bebe comigo
depois vai embora.
Então eu pago a conta
e faço de conta
que Deus vai me castigar.

CRiga.


sábado, 1 de junho de 2019

Os olavetes


Enquanto palhaços distraem o circo
camundongos milicianos virtuais
roem por baixo o picadeiro.

O bobo da corte conduz o gado
com conselhos que vêm do esgoto:
no submundo há um barulhinho de teclado
enquanto o rato-rei brinca de mover peões.

CRiga.