terça-feira, 16 de abril de 2019

Eurico Cerruti


Um pé de ameixa.
Um banheiro fora de casa.
Barata na cama, no tênis.
Festa junina com fogueira e bandeirinha.
Vitrola. Pé de cana.
Coquinho morrendo.
O geladinho de Dona Rosa.
Dona Josefa e o catecismo aos sábados.
Piscina Regan de segunda mão.
O barulho do portão.
A rua paralela onde morava a menina.

Quem me dava almoço?
Jantar?
Quem cobrava minhas lições?
Quem vigiava minha infância?
Quem eu era?

O que fizeram comigo?

Por que não me lembro dos detalhes?
A dureza da vida dos pais separados
apagou memórias que talvez
nem valham mesmo a pena lembrar.

CRiga.



Sem rei mago nem madrinha fada


Não tem me cobre no frio da noite.
Nem levar o copo d'água na cama
tou com sede.

Não tem bala nem maçã da feira.
Tem gibi da Mônica de vez em quando.
Leite em pó contado, duas vezes por dia,
e tarde da noite esperando num ponto
um ônibus e a ela chegar.

Tem visita a cada 15 dias,
brincar de cartas eu me lembro.
Pai com fome, filho tinha de se virar
achocolatado frio empolotado e pão de ontem.

Tem é muita briga de pai e mãe.
No banheiro trancado, ecos estranhos.
No quarto fotos queimadas num canto.
Na sala os socos que ela dava no sofá
depois do bater da porta e ir embora.

Mais tarde, acusações lidas à beira da cama.
Olha a carta que escreveu!
Falou de compadres e comadres.
O garoto não merecia ouvir as dores da mãe.

Madrinha fada e rei mago
podem alegar que não faltou nada
no mundo em que precisaram
matar as fantasias.

Só faltou me sentir mais quentinho
copo d’água na cama tarde da noite
menos bronca do rei mago
e mais luz da varinha, madrinha fada.

CRiga.


segunda-feira, 15 de abril de 2019

Notícias de Hiroshima


Sobre a tranquila cidade vizinha
houve a brisa louca e cinza
trazendo notícias e encomendas.

Talvez uma boneca nova
chegando de presente
à menina que já cresceu.

Talvez a maletinha de material escolar
que o garotinho esperou
lendo uma historinha de samurai.

Talvez o relógio da moda, o vestido
talvez a cama e até um gemido de prazer.

Ou talvez apenas o noivo distante
finalmente na visita prometida,
pousando leve sobre a pele da moça
distraída na lavoura de arroz.

CRiga.



sexta-feira, 12 de abril de 2019

Trailler da paz das almas


Um caminhão passava lotado na rodovia.

E ele câmera lenta. Trôpego.
Observava, ouvia o ronco louco.
Um flash da vida inteira nos olhos sem cor.
Muito pouco a dizer.
Muita vontade de avançar a linha do acostamento.

Na pista tapete de rodovia interiorana,
pouco espaço caso o acaso causasse tropeços.

Não há acasos, caso você não saiba:
na casa do desespero dos fracos,
uma mulher fumava em paz o seu cigarro
entre os braços de um amante mais amoroso.

Era um caminhão lotado de pesadelos.
Os faróis de cor amarela,
para-choque sem dor,
um ronco feroz de animal justiceiro.

E o trôpego avançou a linha do acostamento.

Desde então, justiça ou loucura,
havia mais ternura no asfalto vermelho,
uma abreviação de sofrimentos:

uma mulher que agora amava sem culpa
nos braços do amante agora novo amor,

e um buchicho no boteco da vila
com a conta ainda aberta
de um cliente que nunca mais voltou.

CRiga.



quinta-feira, 11 de abril de 2019

Mágoa


Pedra crack no coração,
bad vicious...  
Envelhece, são rugas rusgas repetidas
amarga bílis
ácido na bem-vinda santa úlcera.

Um parto de dor feito pedra no rim.
Ela vem e petrifica tudo
com seu manto de morte abraçada
amarrada. 

É feito macumba
tão boca de sapo
quanto boca do lixo.

Uma pedra sempre ponto de partida,
sad precious...
No sapato no caminho na cuca
não tem como britá-la jogá-la ignorá-la.

Nem vozes da brisa soprando “esquece”.
Ela é a nova sensação pós-verão
neste agora pedra coração. 

É feito o amor
tão marcante
que a gente não consegue esquecer.

CRiga.


quarta-feira, 10 de abril de 2019

Sobre lobos sem dentes


Há dias em que é melhor
o silêncio rouco
a paz de cemitério.

Deixar o ácido da nova chuva
corroer e batizar almas amargas.

Simples e direto assim
como num dia distraído
pego pela tempestade fria
sem um amigo guarda-chuva.

Simples como apenas escrever
para você quem sabe entender
em qualquer dia de um verão.

CRiga.



terça-feira, 9 de abril de 2019

Cheiro de asfalto molhado


Havia um garoto perdido que só fazia
correr atrás dos ônibus lotados,
a juventude era confusa demais.

Havia sua poesia. Uma menina
com quem dividiu seus sonhos.
A chuva era confortante.
Muita música. Poucas descobertas.

Não havia fada madrinha nem rei mago.

Sempre quando chove,
os pneus dos carros da maturidade
rangem no asfalto hoje muito severo.
É quando cheiro e som se misturam
na alma, querendo resgatar aquele garoto.

É quando pulsa o pulso louco
ao som de uma nova canção
adolescente.
E nada mais resta senão a festa do silêncio
tripudiando sobre o dia amargo.

Sem madrinha fada nem rei mago.

CRiga.