quinta-feira, 21 de junho de 2018

Rimar amor com travesseiro


Há perguntas que de tão simples
armam tempestades.

Você me ama?
Por que não gosta mais de mim?

Nem flores nem dores adiantam.
A esperança, a bonança,
rima pobre, roubada poesia,
nada depois de hesitar na resposta.

Mas há respostas que de tão francas
devolvem as coisas no lugar.

Eu não te amo.
Eu não gosto mais de você.

Sem desvios sem rodeios,
seta que aponta firme e certeira
a estrada à beira do precipício –
rota difícil, a vontade é de pular.

Há amor que de tão confuso
não sente nem sabe
se ama de verdade –
não mente mas omite
insiste corrigir e fica sem sentido
na insônia de um coração partido.

Há amor que de tão autêntico
não mente nem acena,
é seco para o sim e para o não.
Não sente pena, diz a verdade,
dorme o sono de quem ama
simples, sem vaidade.

CRiga.



quarta-feira, 20 de junho de 2018

Procuro qualquer rima


Amores.
Dissabores.

Uma cicatriz que não diz –
grita!

Eu tenho pouco tempo
me sangra
me estanca.

A pedra bruta no caminho
é muito cara, meu poeta...

Há um palco de atores que falham
falam dissabores
tentam arrancar amores.

Mas a terra é seca e eu sou o sol ardente
e a falta de chuva também.

Recorro a uma esquina, covardia.
Não existem amores perfeitos –
são mais espinhos que a rosa.

Eu morro a cada tarde, a cada dia.
Há dissabores que têm sabor –  
são vermelhos morangos demais amargos.

Depois de muito tempo eu quis escrever uma poesia.
Ela me soou enjoada, sóbria demais.
Um dia acerto o passo, recompasso, reconto estrelas.
Invento palavras que rimem com qualquer lugar.

CRiga.

domingo, 10 de junho de 2018

O perdão é cinza


Teus olhos são assim
pra mim
cinzas de um tempo sem cor.

Os teus olhos são
um misterioso e eterno cinza de dor.
Quando eu quero de verdade alcançá-los –
miopia!...

Eu só vejo o dia
um dia
todos os dias em que errei.

CRiga.

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Ao vivo no Teatro Castro Alves



Meu psiquiatra será um músico?
Meu presente sempre agora.
Uma música sempre linda incidental
que nunca acaba em nosso espiral.

Meu cientista será um poeta?
Meu futuro entende qualquer conta errada.
Soma aí uma trilha sempre presente
que nunca chateia o momento da gente.

Ao vivo eu canto danço trato declamo!
É porque os caras sempre ficam assim 
brilhando sorrindo cantando
na capa do disco que eu sempre garimpo.

Para Caetano e Francisco

CRiga.  



quinta-feira, 7 de junho de 2018

Pecados



Vivemos sob os escombros de nossos medos,
traumas e erros.
É escuro lá, você não me vê, tudo bem:
eu me distraio cometendo pecados
calados num mausoléu ateu.

Original é conter os atos,
não descobrir a ferida profunda.

Capital é a cabeça que pensa,
o coração que só quer recompassar.

CRiga.



quarta-feira, 6 de junho de 2018

Dó, si



Eu não tive o brinquedo que pedi.
Mas vi meu Noel sem jeito
quando contava migalhas do seu bolso.
Ele era muito bravo,
um adulto de dar dó.

Eu comi o x-salada que queria,
ela sacou da condução a ficha no caixa.
No balcão da lanchonete a coca veio quente 
pela metade oferecida 
por um adulto amigo talvez com dó.

Eu vi meu vô pelado na sala.
Ele assoviava, nu com sua dor.
Criança, eu não sabia
o que era sentir dó nem sentir dor.

Eu com dó de mim, matreiro trapaceiro,
minha vó prometeu me defender:
bola de meia em cheio, vidraça quebrada!
Mas quando mamãe chegasse cansada
não brigaria comigo não.

Dó, ré, mi.
Faz um favor pra mim?
Canta um sol melódico 
lá naquele meu futuro melancólico?

Pode ser a partir de si. 
Seja lá o que for 
sem assim tanto dó de mim.

CRiga.



segunda-feira, 4 de junho de 2018

Quermesse


Vida besta procurar preocupação.
Bom é procurar no inverno novo
um tempo antigo de curtir no frio
o mesmo couro da velha jaqueta.

Vem que hoje tem fogos de São João,
vinho quente e quentão
debaixo da saia das meninas –
por isso é que não sentem frio
nem nossos corações partidos.

Mas as intenções são as mesmas.
Uma Maria quer casar,
uma Joana viuvar.
Quando Zé pescar o prêmio
a namorada vai enciumar.
A prima de visita quer ursinho,
ela tem lindos olhos de um verde
que nem a bandeira do Brasil!

CRiga.