quinta-feira, 7 de junho de 2018

Pecados



Vivemos sob os escombros de nossos medos,
traumas e erros.
É escuro lá, você não me vê, tudo bem:
eu me distraio cometendo pecados
calados num mausoléu ateu.

Original é conter os atos,
não descobrir a ferida profunda.

Capital é a cabeça que pensa,
o coração que só quer recompassar.

CRiga.



quarta-feira, 6 de junho de 2018

Dó, si



Eu não tive o brinquedo que pedi.
Mas vi meu Noel sem jeito
quando contava migalhas do seu bolso.
Ele era muito bravo,
um adulto de dar dó.

Eu comi o x-salada que queria,
ela sacou da condução a ficha no caixa.
No balcão da lanchonete a coca veio quente 
pela metade oferecida 
por um adulto amigo talvez com dó.

Eu vi meu vô pelado na sala.
Ele assoviava, nu com sua dor.
Criança, eu não sabia
o que era sentir dó nem sentir dor.

Eu com dó de mim, matreiro trapaceiro,
minha vó prometeu me defender:
bola de meia em cheio, vidraça quebrada!
Mas quando mamãe chegasse cansada
não brigaria comigo não.

Dó, ré, mi.
Faz um favor pra mim?
Canta um sol melódico 
lá naquele meu futuro melancólico?

Pode ser a partir de si. 
Seja lá o que for 
sem assim tanto dó de mim.

CRiga.



segunda-feira, 4 de junho de 2018

Quermesse


Vida besta procurar preocupação.
Bom é procurar no inverno novo
um tempo antigo de curtir no frio
o mesmo couro da velha jaqueta.

Vem que hoje tem fogos de São João,
vinho quente e quentão
debaixo da saia das meninas –
por isso é que não sentem frio
nem nossos corações partidos.

Mas as intenções são as mesmas.
Uma Maria quer casar,
uma Joana viuvar.
Quando Zé pescar o prêmio
a namorada vai enciumar.
A prima de visita quer ursinho,
ela tem lindos olhos de um verde
que nem a bandeira do Brasil!

CRiga.



terça-feira, 29 de maio de 2018

Assaltaram a gramática



Azidéia, minha querida!
Ainda com a, cento - 
sinto que revolucionárias
mais de cem ainda fervilham.

Pelo menos o velho verbo flexiona
o bom sujeito que um dia eu fui.

CRiga.



sexta-feira, 25 de maio de 2018

Uma linha escrita na agenda em branco


Rápido, me dê um segundo de sua atenção.
A alma clama a velha chama, me chama,
me queima, me fere,
me dê uma poesia.

Só não espere a vida acabar assim.
Desfie o novelo do aço, ele te enferruja.
Fuja da máquina que ferve os miolos,
que mói o que da alma é corpo.

Não é o frio, nem o fio de voz.
É o abandono, é o rolo compressor
que enterra a dor da margarida no asfalto.
E ela fica lá, desfolhada, amargurada,
pra sempre presa num sorriso amarelo
entre os carros que correm a avenida.

Por favor, olhe pra mim.
Colhe minha última pétala branca.
Aproveite a brisa e solte à sorte
o pouco que resta de mim.

CRiga.


sexta-feira, 18 de maio de 2018

Mais direto, impossível.


Você não é obrigada a me ver, por dentro. Eu não tenho medo de perder dinheiro. Tenho medo é de me afundar aqui sozinho. Eu tenho vontade de dormir a manhã inteira. Tenho vontade de fazer o melhor almoço. Tenho vontade de odiar um chefe. Tenho vontade de chegar cansado e limpar a casa à noite. Se há algo mais próximo ao tal mal do século, não há boa venda que me salve do precipício. Por isso não me importo e só te sigo. Eu sei, ninguém é obrigado a me seguir.

CRiga.

Cláusula



Você pra mim
Eu sou você, eu sou assim
Na saúde e na doença
Seis meses adiantado
Me chamaram, meio período
A casa agora é bem melhor
Me chamaram no sudeste
Apesar dos ratos no muro
Apesar dos gritos caninos
Apesar do tamaninho era nosso
Largamos passos corajosos
Até também o lugar ao sol
Perto de um rio que você conhece bem
Lá o carro grande quase nos atropelou
Recolhemos agora passos em dia
De novo tempo de encaixotar pertences.

Você me culpa, eu sou a culpa
Por isso te sigo pra acertar.

Não é mais uma cláusula
Que vai nos enclausurar.

CRiga.