quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Campari


Você beija e eu não beijo,
e a vida segue...
Amanhã, segunda-feira,
o resto da semana ninguém vai lembrar
nem ligar.
Paguei em dia a conta e ninguém liga.
Ninguém liga pra mim.

Quem não paga a conta que eu pago
usa o fogo que não tenho
pra mandar mensagem, agendar encontro,
sob o meu triste e calejado calcanhar.

CRiga.


terça-feira, 3 de outubro de 2017

Mochila em missão


Pra você que tá perdido
eu não tenho o mapa,
nem capa de chuva pra você não se molhar.

Pra você que tá sem rumo
eu quebrei o prumo faz tempo…
Sentimento eu tenho, varia,
mas geralmente dá pro gasto.

Basta você mostrar as caras,
qualquer uma, amo todas!

Para o amigo Danilo Amélio


CRiga.


segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Um pomar de memórias


Todo mundo achou que ele morreria primeiro.
Como a tia sempre dava surpresa
fosse no bolo gostoso na visita da tarde
ou no “não” tão providencial,
ela foi, nem disse tchau.

O tio ficou esperando sozinho na mesa da tarde
o suco da fruta acerola.
Era a hora que o silêncio da velhice
sobrevivia eternizando
o amor que sempre foi necessário.

Para tia Leonilda


CRiga.


quinta-feira, 28 de setembro de 2017

O morro que não é mais nosso

(foto de Antonio Lacerda)

As mazelas esperneiam
e o esperma corre as pernas.
É quando o triste fecundador
desiste do mundo mundano –
um bebê morre anjo
feliz angelical.

As janelas estão fechadas
e os beirais têm rosas secas.
A cidade está de olhos cerrados,
fingindo um sono, talvez embriaguez,
para aliviar a dor.

A luz da tevê ilumina um barraco,
e o cheiro do jantar se mistura
ao pó da casa fechada
em pleno verão.

Os gritos daquelas crianças
estilhaçando as alegrias de infância,
hoje fazem parte da canção de ontem
no vinil velho comido pelo tempo.

O batom que era da camisa de seda
virou sangue de execução na mesma esquina,
onde cantava a boemia
uma vida mais bonita.

Aquela seresta virou faroeste,
e o oeste virou medo no pôr-do-sol –
é quando morre na esquina
mais um inocente trabalhador.

Não há caminho de volta ao lar –
há via crucis no chão de terra batida
onde Cristo podia bem ter caminhado,
não fosse a cruz virar arma branca
pra dar na cabeça de bandido
e de penhora à polícia.

Não há caminho aos novos fecundadores –
o espermatozóide tem medo da missão
e canta assoviando uma musiquinha
sucesso de antigamente,
pra disfarçar sua tristeza
de ter que dizer não.

CRiga.


quarta-feira, 27 de setembro de 2017

A vida cavalga


É o inverno que muda as coisas, me faz lembrar de você de novo como se eu fosse a culpada por não ser feliz. Talvez seja mesmo, talvez você nem se lembre mais de mim, então remexo velhos pertences e não me encontro, só encontro você. Remexo números, não te encontro, ligo à telefonista, simpática, quase chora comigo, esses homens que nos esquecem são foda... Esse é o número mais próximo, então ligo, você não está mais lá, mas alguém diz “ele está em tal lugar”. A telefonista me dá então a porra do número do tal lugar, sem certeza penso te encontrar, alguém atende pelo teu nome, te encontro, é você, meu antigo amor!

Simpático como sempre! Casado, mas simpático. Com um filho, mas tão amoroso como sempre. Mudei de casa, você não sabia, e você me disse que foi me procurar numa noite com flores e vinho às mãos, e que por isso não me encontrou. Mentirinha bonitinha, me conquistou. Que saudades de você, do seu beijo, do seu abraço, do seu amasso. Acho que aproveitei pouco, muito pouco, não te dei devida atenção, eu sei, me arrependo, sou libriana, quero tudo vindo, quase nada indo.

Mudei de jeito também, você não sabe? Não saio mais em tantas baladas, parei de fumar, me conheço mais, gosto mais de mim, estou só um pouquinho mais gordinha, sem tanta diferença, acredite, estou mais bonita. E não cavalgo mais, você acredita? Eu também. Só falta você pra completar, mas não tenho coragem de dizer. A vida cavalga, eu parei.

Determinado momento você disse que é importante agarrar as chances quando elas vêm. Não esperar que aconteça, apenas estar esperta para a hora que acontecer. Sei que não foi por querer, mas parece que isso me feriu lá dentro, sem você perceber. Eu sei que não foi por mal, meu amor, nada vai me fazer tão mal quanto esta vontade de te pedir desculpas sem tempo, essa vontade louca de voltar no tempo e te agarrar, esperar que aconteça e estar esperta para fazer acontecer.

Bem, me ligue um dia também. Vamos sair, quase eu disse, tomar um chope, você não pode, agora tem família e não vou insistir. É errado, nem sei se tenho coragem. Acho que teria, te beijar de novo como antes valeria. Matar-me mais um pouco por não ter você, recriar-me por segundos eternos nos teus braços que um dia me tiveram mulher. 

É o inverno que muda as coisas assim, faz a gente amanhecer cinza com saudades do passado que passou entre os dedos, feito areia de ampulheta que a gente não agarrou. Eu te amava e não sabia, me perdoe, meu amor. Seja feliz, seja feliz, vou desligar. Eu ainda tenho a poesia que você fez pra mim, preciso desligar pra não chorar. A vida cavalga, eu não mais...


CRiga.


segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Áries


Bota seu batom vermelho
o único, o melhor.
Quero te sangrar com a vida que sou.
Eu sou.
Eu sorrio.
Só quem compartilhou a alma dessa doce vibração
pode dizer-se livre, ariano.
Como um passeio de bicicleta,
um pedido de desculpas.
Um trovão à meia-noite!

Para minha amiga,
Alessandra Nalio.


CRiga.


sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Boa sorte


A garota maquia o rosto, refaz o sorriso.
Há vários séculos há várias esperanças –
os anos dirão sobre pontos a chegar.
Ela não precisa de pontos cardeais
nem de padres ou bispos,
ela não quer aprender xadrez.

Há uma discreta sentença no olhar de lado.
Deixe dizer e sorrir juventudices,
tem tempo.
Peça que sabe sim fazer a tempo,
não é peninha boiando
ao bel-prazer de qualquer brisa.

Perdidos somos nós, há um medo
simples de nos assumir poetas.
Versos que correm inteiros soberanos
no vácuo do olhar de lado,
não compreendem plenamente
o tamanho da peninha que bóia.


CRiga.