quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Vila Leopoldina


Ele não sabia que, entre as suas pernas enquanto sentado no corrimão do cursinho, ela sorria pedindo sua atenção. Ele não sabia que o coração era tão traiçoeiro quanto o tempo, que não curava feridas porra nenhuma. Ela cantava aquela canção do Robert Plant, dizendo que se lembrava dele na hora em que loirão gritava “I burn in love”... Ele sabia inglês, mas não quis saber o que significava.

Anos depois, visitou-a sem culpas de entender. Na verdade sem mais nada – naquele coração cego e surdo por sensatez jazia o vazio de uma tristeza incomunicável, um tempo cinza chuvoso de setembro e um vagar pela cidade e parar na sua casa para um oi.

Almoçou com ela e com a mãe, o almoço do pai falecido. Ela tinha novos discos, e conseguira achar aquele do Terence Trent D’arby, com “Seven More Days”, de um velho comercial de jeans em que o cara ficava um tempão esperando a namorada se vestir, ele num carro conversível, fez sol, fez chuva, e ela sai vestida no jeans perguntando: “demorei?”, e ele responde: “não, acabei de chegar”.

Ele demorou... um namorado viria vê-la amanhã, gostava de Beto Guedes e Belchior. Ele não conhecia, mas sabia do “não dá mais” brusco do seu olhar. Ele a conhecia. E ela o conhecia, e sabia que saindo dali ele compraria discos do Beto Guedes e do Belchior. E comprou mesmo.

Ele foi embora não arrependido de ter ido, nem arrependido de ter se feito cego anos antes, nos corredores e corrimãos do cursinho, ou à caminho do ponto de ônibus depois das aulas encerradas tarde da noite. Foi embora arrependido de nunca ter convencido ela que sabia dos olhares pedintes, das traduções, dos códigos tão jovens. Arrependido da insistência em dizer amiga, amiga... Amiga, palavra triste quando se perde um grande amor...

CRiga.



quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Chovendo elefantes


Quando for água só quero ouvir
o som do pneu contra o asfalto
falando alto à alma sedenta
cheiro da chuva, selvagem poesia.

Por enquanto acidentes acontecem
todo dia.
Nunca aprendi no circo da vida
domar paquidermes para o show.

Agora fecho o guarda-chuva furado
dou de comer, finjo a seriedade
dos ativistas do Greenpeace.

Cheguei até aqui, promessas quebradas,
ruas desertas, feridas abertas  
manchando apenas os cadernos.

Que meu sangue sirva na transfusão
aos pobres elefantes que passarão.

CRiga.



terça-feira, 19 de setembro de 2017

Um flash de olhos verdes


A cada sino que bate nessa porra de vida
a gente vê que é chegada a hora
que a hora sempre chega, rapaz,
e que seu fraque lindo preto que quis salvar
não conseguiu te desviar

Nem mesmo os horizontes de amigos seus
uma nova casa
um novo emprego
puderam te fazer enxergar outra estrada
que não aquela que você foi.

Eu sei que foi assim, rapaz,
olhar distraído contraído no coração...
A vida tem dessas, mas não era pra acabar assim,
um flash moleque de olhos verdes
apenas assim olhando pra frente
ligando a moto e indo embora.

Magrelo filho da pota!
Cadê tua foto que não chega mais?....
Aquela cerveja foi tarde demais
a mesa não tem graça assim
sem flash e molecagem...
...vai, tudo bem,

A gente se vê
fotografando anjos e estrelas
sem chefes nem fechamentos
numa dessas pautas loucas aí do céu!...

Para o amigo irmão, Edu Venâncio.
10 anos, filadapôta!

CRiga.
(19 de setembro de 2007)


segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Ponto de desencontro


Só te chamei pra perguntar se é só eu quem sofre essa dor de desencontro. Se é sou eu quem sente esses sinais do tempo, nos sonhos, quando a gente se encontra e acorda triste, feito coração partido pela metade. Se só sou eu quem se sente boiando num céu azul de missões, feito enfeite pendurado no teto, de lá pra cá, à mercê dos ventos que entram pelas nossas janelas abertas. Por favor, fique e me diga que não sou eu apenas quem espera um dia, nesta vida ou não, estar ao lado da alma dos tempos imemoriais.

Sim, isto tudo parece loucura, é muito mais poesia romântica que sensatez, tudo bem: não precisa se sentir sem jeito por atender ao chamado de alguém que você não via há tempos, alguém que não consegue deixar-te apenas sobrevivente. Não me olhe assim, com esse rosto de quem quer condenar Nero à própria fogueira, e fugir deixando para trás as cinzas que também são suas. Eu sei que você se disfarça como eu, à espera, à espreita, de longe, não quero nem te desviar de qualquer caminho que te faça segura sobrevivente, apenas quero uma resposta que nos conforte por ora, o resto de nossas missões.

Eu só quero saber se você também sente um coração nublado de vez em quando, quando você acorda, uma vontade de uma lágrima apenas, no canto do rosto gelado, pra lamentar essa ausência de você mesmo. Só quero saber se você também carrega consigo estas mesmas saudades do que nunca foi, mas com rostos e almas tornadas penduricalhos brilhantes naquele teto azul de Deus sozinho lá em cima, brincando de missões.

Se você não quiser responder, tudo bem... Vamos voltar à vida de sobreviventes, com sorrisos e afetos fáceis e outros sinceros também, de luta intensa no silêncio descomunal e confortante de deuses solitários, perambulando por aí de jeans, tênis e óculos de aros pretos, procurando sentido nas fáceis multidões. Vamos voltar aos nossos tetos reais sem penduricalhos, sonos pesados de cansaço, sonhos de veludo, manhãs de cheiro de asfalto molhado e luzes amarelas refletidas no chão, dando o tom de desencanto pelo resto do dia. Pelo resto da vida.

Vamos enfim lamentar este encontro, ou apenas beber ao reencontro cômico regado a fantasias sinceras. E vamos rir disso tudo então, dizer como seria se você tivesse voltado a passar naquela minha rua, como seria se eu tivesse dado a resposta sincera, não aquela defensivinha de garoto bobo. Comemorar como a vida é louca, esse vaivém de gente que nos invade e que parte sem dizer adeus.

A gente pode então rir alto feito gente feliz, e não precisamos nem mais tocar nesse assunto tão amargo e perigoso. Forçando a hora de ir embora, vamos olhar nos relógios procurando muros, trincheiras e saídas de emergência nos ponteiros. Vamos fugir dessa situação embaraçosa e caótica de falar sobre coisas e tempos que precisam ser descoisadas e arrancadas do DNA das horas. Vamos fingir olhares apressados mas saudosos, firmes na despedida. Vamos nos despedir apenas com um tchau, foi legal, enfim...

Ou vamos talhar com o punhal seco dos tempos a ferida, olhares molhados, bocas trêmulas e mãos dadas sobre a mesa do bar vazio. Vamos escancarar essa doideira de sentir saudades do que nunca foi, mas deveria ter sido não fossem os ventos na janela sempre aberta de Deus. Vamos amaldiçoar os desencontros, e admitir que não estamos mais prontos pra reconstruir passados que não passaram. Vamos apenas pôr na mesa essa intensidade de nos sentir almas tão ligadas no tempo, que se encontram de quando em vez nos sonhos, em outra dimensão. Vamos fazer um pacto sem prazos nem condições – apenas de confiança nos planos de Deus e seus penduricalhos brilhantes que só precisam de polimento. Vamos chorar de verdade. Vamos chorar a verdade. Vamos esquecer da verdade.

E vamos embora, enfim, apenas demarcando território: eu sou seu, você é minha, e ponto final, os desencontros a gente resolve depois das missões. Um brinde, meu amor, um brinde aos nossos desencontros necessários à sobrevivência da poesia, e dos doces barulhinhos que fazem os penduricalhos do teto de Deus, quando bate um vento de saudades e eles se esbarram no Seu céu azulzinho de missões.

Adeus, meu amor, até mais, até o próximo vento de janelas abertas. Até o teto azul finalmente nos soltar, e cairmos ex-penduricalhos, mas de pé, sem mais necessidade de polimento e de desencontros. Apenas nós, um encontro marcado, sem segredos, e uma casa com penduricalhos de anjinhos à porta. E aquele doce barulhinho à leve brisa, na varanda, aos finais das tardes que finalmente serão nossas.


CRiga.



sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Peso para o papel


Você me deixa muito solto,
morto vírus no ar que tu respiras.

Inspira-me de novo,
me leva pro teu sangue –
há de reviver de novo
o amor contente, doente.

Este amor que hoje é apenas
um ente querido acamado,
calado esperando a cura
da tua sã indiferença.


CRiga.


quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Um medo


Meu amor reclamou de dor
no peito, não era falta de amor.

Um gelo, meu peito que doeu
tão forte, lá no fundo, fim do mundo,
amargo medo, logo cedo.

Coração descompassou...

Que se danem comentários,
fechamentos e tribunas.
Eu te amo, eu te quero,
não quero vender memórias.

Amor rima mais com flor
do que com dor.

Não me assuste, margarida –
da janela há tempo bom
terra marrom pra gente ainda plantar.

CRiga.


quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Me protege no teu corpo


Pior é depender de um “bom dia”
da boca amarga da missão.
Um dia de sol que ri da tua cara –
o mundo não para de girar
por causa da agonia.

Vem, me abraça, me ajuda,
me diga, me ensina, me engole.
Até horóscopo hoje me diz verdades,
eu não consigo ouvir qualquer voz.

No final do dia consigo um respiro,
inspiro, caminho à tarde que morre
ainda em câmera lenta, preocupada
com a louça que grita na pia.

O que me falta agora é da noite a boca
a cama, o corpo.
Pesadelos e insônia renovam
a agonia de um novo amanhã.


CRiga.