quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Água leve leva lava a lama d’alma


Nasci e cresci calado.
Quando grito eu urro.
O silêncio ainda é de ouro.
O touro também fere.
A fera ainda sente.
Ainda mente pra sobreviver.

Não há louça que fale mais alto.
Há uma criatura que grita rouca
a rima solta da lucidez.

CRiga.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Um flashback



O que não te acontece mais aos ouvidos,
muitas vezes a alma escuta, lá no fundo
pedindo um segundo da tua atenção.

Há um tapete de ácaros dores encrustadas.
Debaixo não há o pó do arrependimento,
apenas o piso frio de uma inocente solidão.

O que não te acontece mais nas pontas dos dedos
talvez seja o restinho do doce brigadeiro
que a língua adolescente não aproveitou.

Há um poema que precisa te pegar no rosto
dizer o quanto sinto muito o desperdício.

Reviro discos e canções,
e a agulha agora falha.
A ilustre amiga traiçoeira
que não me deixa me sentir
mais sentimental.

Me dá uma lua risquinho no céu, um sorriso
me devolve aquele restinho de eternidade
um dia guardada confiante
na gaveta de nossa juventude.

CRiga.



terça-feira, 8 de agosto de 2017

Vácuos na segunda


Necessário às vezes fugir da segunda-feira,
uma curva à esquerda, o sol da manhã,
à direita cuidado com o excesso de confiança.

Não inicio semanas com esperança de vencer.
Há uma certa calma que me orienta,
e eu não tenho mesmo os pés no chão.

Decidi aceitar as roupas de guerra
até enquanto permaneço na trincheira
deste frio apartamento que me convém.

Também vejo a terra prometida, o caminho,
o pó que a gente come na nossa estrada.
A entrada tem uma porteira capenga
que sempre nos dará as boas-vindas.

A espera é santa, ela canta aos ouvidos
o som que os carros na estrada dos Romeiros
não engrena nem engana
no caminho longo até a paz.


CRiga.


sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Cinco minutos


É o que me resta, uma rima, um clichê
pra de novo eu não falhar com você.

No relógio os ponteiros me perseguem,
olhos vidrados, estrábicos, diabólicos
querendo me fazer errar.

O DNA cinza encrustado nestas horas
me frita, me desumaniza.
Respiro fundo no tic do primeiro segundo
e morro triste amaldiçoando
o impiedoso tac que me flagrou 
cinco minutos atrasado.

CRiga.   



quinta-feira, 3 de agosto de 2017

A vida parece brincadeira


Quebro cabeças,
meu filho quebra brinquedos
e a vida continua.

Equilibro pedrinhas,
há um ritmo pra construir o castelo
e outro pra não deixar ruírem contratos.

Jogo com as palavras,
mas o tribônus algoritmo on-line
são apenas dragões de um tabuleiro.

Visto camisas de guerra,
e uniforme de escola jogado
não pode mais incomodar.

Mentira boba que me sinto bem,
você tão concentrado em só vencer.
Vem perder comigo o jogo perdido
debaixo da cama,
o tempo que não temos.

Isto tudo meu é pra você.
Isto tudo teu é pra me fazer
vivo, reviver.


CRiga.


quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Vestimenta do dia


Lapido letras que valem o dia de cada leão morto.
Vejo espíritos refletidos no vidro da sacada.
A censura sobre as letras que não dão dinheiro.
Então me escondo, revejo prazos, e me flagro alma incompleta.
Dedicar-se, quanto tempo pra cada coisa?
Planos me fogem do controle feito areia solta ao vento.

Rápido, letras fogem para marcar o papel!
Leões rugem da cova que eu tapei com o rascunho.
Não havia o sobrenatural pra me assustar, inspirar.
O dia acaba, a noite vem com seu ar de ordinária.
Dedicar-se a que se a calma convém?
Panos de prato secam os pratos.
Roupas de escritório escondem o pranto.

Até a tecla off ainda foge de mim...


CRiga.


terça-feira, 1 de agosto de 2017

Todo o céu para você


Menina distraída não viu o cometa.
Cometeu o erro de procurar felicidade
na esquina onde a alma curta
só foge da simplicidade.

A paz era apenas um só anel de Saturno,
não precisava esperar rubi presente
do namorado que faltou ao encontro.

A lua cheia sorriu cheia de esperar
a busca pouca nem que fosse 
romance de novela
aquele tão fora do alcance dela.

Carnaval de astros e estrelas,
mas ela só via um menino nunca olhar.
Insistia no dia moribundo
da cidade que não sabe ser grande.

Grandes são os olhos de quem sonha.
Quem inventa no zodíaco borrado
uma história inspirada
em querer amar de novo.


CRiga.