segunda-feira, 27 de março de 2017

Pijama


Hoje está nublado e resolvi ficar triste.

Eu queria era cravar a minha estaca tinteiro
no coração do tirano o outono inteiro.
Emprestar o tempo que acumulei
a quem precisa tirar moedas do nariz,
comprar uma vida apenas honesta
e mais feliz.

Nada além da impossibilidade de tudo
é que me faz assim tristonho.
Não ser o alquimista que sopra o ouro
fazendo um sol qualquer aparecer.
Não ter pra onde correr, homem feito
se escondendo num pijama...

CRiga.


sexta-feira, 24 de março de 2017

As simples letras pepitas de acalmar


Não adianta mesmo coçar-se
coisas que não são tuas.
Níqueis sem rostos de presidentes
caem dos bolsos furados –
nada paga a paz de espírito.

Há um Brasil que tolhe direitos,
e até ser simples neste garimpo
custa caro como o desperdício
na Assembleia Legislativa.

Há valor às minhas letras,
não caras nem bancando
a coluna social.
Nem raras que sustentem
o carnê do falso lar.

Vá lá! – é preciso mesmo
muita simplicidade, meu amigo!
Não me venha com o faxina
que virou empresário
e até um deputado!

O valor que se paga é pepita d’alma,
a minha alma!
Ladrilha pedrinha de brilhante
ao meu amor que não passou.  
Se essa rua se essa rua fosse minha
eu não vendia, eu não vendia.

As letras pagam meu cobertor de ouro,
a alma é nua!
Esperança menina que orbita boba,
solta, singela num poema.

CRiga.


quinta-feira, 23 de março de 2017

Tarde de outono


Perdido na tarde do velho outono
conserto – sei –  à linhas nobres
as letras de bons amigos meus.

Corrijo até destinos, reencaixo rumores.
Eu só não queria sentir o frio da tarde
e seu desânimo de fim de vida.

Fazer o que se gosta é bom.
As sombras do tirano me lembram
apenas que não sou mais um robô.

A vida segue, é esta que te acontece –
a avó velinha que morre assim singela.
A torcida por um menino empatar o jogo.
A bronca no garoto que perdeu a hora.

Ainda te amo, garoto. Te amo mulher,
te quero, ainda espero as tuas 17 horas 
finalmente me salvar.

CRiga.


quarta-feira, 22 de março de 2017

Exorcismo


Não quero as letras de tuas mazelas.
Não quero te dar trela, envelhecer.
Não quero te atribuir estrelas.

Mas insistes me perturbar, diabo de terno,
lobo podre em pele de temente
e brochinho de parlamentar.

Eu não tenho nada, mas tenho tudo
não estando do lado perdido.

Eu não rezo e não engano.
Você ora ferrenho,
engana e se engana.
Simples assim.

Tem gana em iludir
iludir-se, pobre coitado da faxina
que venceu na vida
e perdeu no caráter.

No cateter
da tua fodida personalidade sorridente,
corre apenas água morna –
aquela que nem quente nem fria
só faz vomitar.

Eu preciso de um exorcismo.
Você me plantou as labaredas do inferno
na pele que coça
e um diabo no corpo.

(e eu que fui procurar imagens dos teus vícios
e tantas tantas encontrei...)

CRiga.



terça-feira, 21 de março de 2017

Sintomático (parte dois)


Se a pele ferve a verdade da alma.
Se a calma não faz parte deste corpo que sofre.
Se o medo corrompe até o pensamento mais forte.
Se o tirano ainda domina sua estima e sua sorte.
Se a morte não é alternativa.
Se o sol resolveu entregar-se ao conveniente outono.
Se o sono é o amigo traiçoeiro que te acorda.

Se a corda sempre rompe pro lado mais fraco.

Tome cuidado. Um trago. Uma cerveja.
Tenha certeza que o se passa.
Mate um de cada vez, tiros certeiros ou não,
monte guarda no saguão, aponte sim o inimigo.

Nada é simples. Nada é certo.
Eu estou muito triste. Ando.
Eu não devia estar aqui.
Eu não devia estar assim.
Nada mais.


CRiga.


segunda-feira, 20 de março de 2017

Um passeio a boa vista


Eu procuro a paz, um clichê, que seja.
Um passeio pela boa vista, um rio o ano inteiro.
Eu procuro saber se tenho jeito, se no peito
o coração aguenta, se consegue resgatar
os passos tranquilos pelo Paço.
Eu apenas faço de conta que sobrevivo -
eu insisto procurar-me
meu lugar sou eu.

Busco em mim os dias
em que finalmente me veja sem pressa,
homem livre, peito aberto
num passeio pela boa vista.

CRiga.



O tamanduá


É que eu quero saber
se mereço teu querer
destruir, destruir-se
maremoto, terremoto
no nobre formigueiro.

Mas você existe
subexiste
sobrevoa
urubuza.

Chamusca
chafurda
fode
vomita
engole.

Eu ainda vou escrever
sobre o ser que habita
seu habitat particular.

CRiga.