quinta-feira, 16 de março de 2017

Anencéfalo



Pré-nasci, sou assim sem cabeça
eu penso com o coração...
e por isso nem sei se sinto dor
depende de minha mãe:
se ela sofre me dói também
e prefiro acabar com a dor;
se acredita me alivia
e me dá mais um dia.

Quem disse que não a vejo?
Eu vejo sim, o rosto dela
em mim,
e mesmo que eu não saia vivo daqui
ninguém sai vivo de lá também.

Depende de minha mãe...
Eu não sei nada, nem pensar -
e ela também não, tudo bem:
só sei que ela quer o melhor pra mim
só sei que ela quer o melhor pra ela também...

...há melhor no pior, mamãe?


CRiga.


quarta-feira, 15 de março de 2017

Corujice...


Apresentação do pequeno pianista Francisco Rigamonti (por acaso, meu filho), acompanhado da linda bailarina Carolina Gaspar, no Teatro Municipal de Barueri, segunda, 13. Performance linda e emocionante de Pour Elise, de Beethoven. Orgulho!

CRiga.


terça-feira, 14 de março de 2017

Capturando vento


Preso ao calcanhar do retardatário –
pensa estar entre os primeiros.

Inflando o ego de um balão furado –
pensa ainda ter ar para voar.

Abrindo caminhos aos rincões do nada –
pensa ter estrelas pro seu vazio vazio céu.

Quem preso, inflando, abrindo,
come calado sua pedra no sapato.
Mas sabe bem quem prepara e serve
o prato justo de quem tem a consciência.

O retardatário balão dos rincões no nada
captura vento
e semeia tempestade.


CRiga.


segunda-feira, 13 de março de 2017

Pureza


Eu vejo uma bela história de amor
sem toda tanta dor que senti.

Mas eu nem tenho este direito...
Não se pode querer postar os pares
nos lugares perfeitos da tua fotografia.

Não adianta adiantar-lhe
o olhar aos lábios –
a boca dela por enquanto só denuncia
a pisada na marca da amarelinha.

CRiga.


sexta-feira, 10 de março de 2017

Separação


São as pétalas que descolam,
caem antes tapete ao altar.
Ervas daninhas são o jardim,
antes cúmplice da cumplicidade.

O peixinho morreu, boia no aquário,
e até o gato chora a falta de fome.
O vizinho quer encher o saco,
quer botar o copo na parede...

Não há louça empilhada na pia,
par ou ímpar, não há mais refeições.
Não levaram as crianças pra escola
triste folga, vamos brincar lá fora.

O quarto escuro cheira a suor envelhecido
e o espelho do banheiro foi quebrado –
azar maior é visita sem aviso,
compromisso de diretoria.

Retratos que sorriem pares da memória
estão virados sobre o pó da estante.
Há um instante em que morrer é bom,
mas há também um som diferente
pra cada lágrima que cai –

eu hoje esqueci você um pouco mais
que o quase nada de um ontem qualquer.

CRiga.


quinta-feira, 9 de março de 2017

Um tombo na madrugada


Mergulhado
se esquece que a morte vem
trotando, avisando.
Uma voz rouca ao telefone.

Às vezes apeia o cavalo
deixa aproveitar o chá das cinco
com as rosquinhas de leite
que enganam o espírito.

Mas uma hora volta no pó da estrada
chega de madrugada, silencia os grilos.

Põe as cartas marcadas sobre a mesa
e não adianta protestar –
é sua assinatura ali grafada
as fotos então queimadas
num canto do velho quarto.

Caem ao chão o rosário,
a Nosso Senhora negra que dava medo
e o livro de Alan Kardec –
deixa quem fica defender quem vai,
leva quem nunca perdeu a fé.

Mergulhado nas gotas diárias do ácido,
se esquece que o seu corpo também padece.
Antes a morte leva alguém.
Depois, leva você também.

CRiga.



quarta-feira, 8 de março de 2017

Ao meu surdo coração


Lá em cima do piano
tem um copo de virtude.
Quem bebeu foi um filho meu
por Elisa, São Francisco.
Um menino de sorriso
solto assim no ar.
Um talento pra tocar
até surdos corações.


CRiga.