segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

A cotia e o bulevar


Eu tinha um duelo agendado,
dia de morrer como herói.
As ruas estavam preparadas
pra minha passagem triunfal,
postes enfeitados, cartazes de São João
e uma praça cujo coreto imaginário
me olhava sorrindo orgulho.

Eu não fui, eu não morri.
Depois me trancaram na jaula do velho leão
que por pena devorou apenas meu espírito
sem registrar minha carteira profissional.

Depois de perdida a hora, os anos,
madrugada peguei um ônibus vazio
e fui pra longe longe
sentado à janelinha da solidão.

Lá no longe havia luta
havia luto, uma ladeira pra subir.
Mas não havia mais arena nem festa
apenas uma janela pra ver de longe
a cidade que não diz
o que ela pensa de mim.

Quando eu morrer envie a conta
hão de querer pagar
hão de noticiar que meu corpo
partiu doendo, mas inteiro
sem se humilhar no velho bulevar.


CRiga.


sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Mundo gira


Quando conquistei o mundo,
brusco ele fez seu movimento
pura rotação.

Fui parar em outro canto
longe do “meu” mundo...
é preciso contentar-se, meu amigo,
todos tomam de assalto
o que na verdade não é seu.

Tudo gira no louco carrossel,
trator esmagando casas de família.
Guilhotina sorrindo no meio-campo,
cabeças rolam no campeonato.

Varreram-me pra fora
sujeira inteira, minha alma limpa.
Saí sem buscar os restos de mim.
Esvaí-me oxigênio, outro mundo
não é meu, nunca será.

Agora só é preciso respirar,
é preciso você me inspirar.

CRiga.



quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Mais dia, menos dia


Ela desce a rua
triste moça bonita
que ensaia de soslaio um olhar.

Mesmo assim a vejo sorrir
(porque talvez eu queira ver).
Vejo insistir vencer o dia
a melancolia –
amor pra outra vida.

Eu não duvido, ela me grita.
Mas sua voz se perde no sol na manhã
no silêncio de uma doce resignação:

mais um dia...

CRiga.


quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Alugar teus olhos


Dizem que falar sobre os próprios monstros que corroem a alma acalma o espírito, desacelera o coração de compasso amargo, crava aos poucos o punhal mágico da sonolência no Godzilla de hoje em dia – ele arranha com suas garras pegajosas por dentro do corpo que precisa continuar numa nova luta que a gente mal sabe qual é.

Dizem que o luto é relativo. Alguém morre sem ter dito algo importante, outro deixa carta e sela destinos – pronto, não há por que duvidar, não há por que parar para pensar. Mas o morto puxa suas pernas por madrugadas e naqueles dias do sol que gargalha da sua cara, a vida continua, meu velho, o mundo não vai parar de girar por causa do teu umbigo molhado.

Dizem que quando te matam e te deixam vivo, os vivos do lado de lá não explicam se é bala ou espoleta, e a você só resta acreditar que ainda vale pelo menos um vintém. Alguém te mata depois do jantar, depois até da sobremesa, e abandona teu corpo na chuva esquisita da indiferença. Difícil crer, difícil falar, mas não resta muito a não ser alugar nem que seja a folha em branco de um caderno que não quer se manchar com tuas mazelas.

Dizem que morrer pode ser bom. Dizem que renascer é muito melhor.


CRiga.


terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Recomeço, reorigem


Parece que o caminho correto,
não necessariamente suave
é mesmo a casinha do interior.

Onde esta falta de ambições ganha coro,
esta falta de amor à terra
vira mão plantando nova árvore
e escrevendo pergaminhos à luz de velas.

Tudo é sonho.
Mas aqui tudo beira
pesadelos.


CRiga.


quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Cinco e meia da manhã


Me deixa viver, continuar.
Me deixa ir, me deixar levar.
Me deixa que eu preciso
apenas de um por que levantar.
Me deixa por um instante
ter esperança em recomeçar.

Mas não me deixe de lado
não deixe de me acreditar.

CRiga.



quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Bem longe


Não está chovendo ainda
mas nada ainda aconteceu
que me fizesse ir embora.

Tudo ainda é o velho esquema
e eu não estou mais dentro
quero sair para bem longe.

Onde perdão perde sentido
porque tudo é igual
a nunca ter-se errado.


CRiga.