terça-feira, 13 de setembro de 2016

Ira


Provocamos fogo.
Provocamos ira.
Mas às vezes mesmo basta
com razão e sem sede
pedir apenas água.

Beber da água de beber
morrer um pouco, ceder,
afogado no mesmo fogo
na mesma ira,
enquanto ambos correm soltos
pelo teu sangue de quebrar espelhos.

Os cacos eu junto,
quem sabe meu sangue de juntar teus cacos
jorre da jugular por bem cortada
e termine com o circo da tua ira.

Quebrar espelhos dá azar,
explodi-los dá muito mais.
No fogo é proibido queimar,
mas na ira é permitido magoar.

Daí pensa-se em quebrar as correntes
em deixar os cacos cortar.
Não há mais o bom fogo,
e na ira não há forma nem conteúdo.
Apenas a poesia barata,
obrigação de fim de mês.


CRiga.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Sótão


Nos recônditos dest’alma
você se esconde
tripudia silenciosa
no tapete vermelho
veludo tarimbado
você irradia
feito sol de fotografia
porta-retrato desbotado
em minha velha escrivaninha.

CRiga.

terça-feira, 6 de setembro de 2016

TIC-TAC


...TIC...

-          (sem jeito) Acordou, amor?
-          (irritada) Que acha?!...
-          (com jeito) Acho que sonhar é belo, mas... é....
-          (perdendo a paciência) O quê, saco?!...
-          (levantando os ombros e sobrancelhas) Desculpe...
-          (ouvindo, ainda) hum...
-          (tentando explicar) É que teu sono era tão provocante...
-          (tentando entender) E daí?...
-          (já era pra ter entendido) E daí que, sabe como é...
-          (só esperando a confirmação) Fala logo o que cê quer falar, quero dormir...
-          (tinha que entender)... daí que me provocou. Não quer acordar um pouquinho?
-          (não tão fácil) Pelamordedeus! São quatro horas da madrugada...
-          (discurso pra convencer) Tu me olhando assim me perde mais...
-          (sonífera, em desafio) E não gostas, não, moço?...
-          (dando certo) Claro, por isso te acordo.
-          (pintou o clima) Sem ter porquê te perco.
-          (vamos nessa!) Mas com porquê te acordo.
-          (trocadilhos pra esquentar) Gosto que gostes de se perder.
-          (tudo bem, mais um, vamos lá) Não bebes logo o meu vinho?
-          (o jogo) Quero antes provar o buquê...
-          (tá demorando) Quê?
-          (beijinho) Assim, aos poucos...
-          (beijão, no segundo tempo da prorrogação) Quebremos logo a garrafa. Sou todo cacos p’ra te cortar!
-          (dentada) Ai!
-          (foi pra excitar) Te machuquei?
-          (esquentando o clima, mas com jeito) Pouquinho só...
-          (esfriando o clima, sem jeito) Tirei teu...sono, né?...
-          (acordou!) Totalmente, senhor!
-          (que que eu vou falar?) Quer tirar o meu?...
-          (hã?!) Estás?
-          (demorou demais, preciso dormir) Não estava. Já é manhã...
-          (descrente) Não ias me cortar?
-          (rodeando...) Todo esse teu vinho...
-          (anda logo, ataca!) Não é bom?
-          (rodeando...) Embriaga...
-          (é agora, é agora!) Então!

...TAC...

-          (rodou!)...embriaga ...de sono...
-          (corta essa!) Ah, não! Agora não!
-          (virando de costas, aos poucos) Amanhã vou trabalhar...Já são quase sete...
-          (segurando o braço dele) Mas não são sete agora!
-          (forçando para se virar) Mas tem que ser na hora!
-          (cafajeste!) Na sua, é claro!
-          (escândalo agora não) Fala mais baixo, pô.
-          (vai se danar!) Você quem chamou, pô!
-          (olha o sono aí, gente) Ai...Ai...
-          (não crê) Não tá com sono mesmo?
-          (olhos pesados) N... ... ...
-          (acorda, filho da puta!) Ei!
-          (já tonto de sono) Que horas?
-          (Ainda há tempo) Quatro e quinze.
-          (já era há muito tempo) É tarde.
-          (missão) É cedo.
-          (não enche o saco!) Tou com sono.
-          (ah, é assim?!) Vá dormir, então.
-          (convenceu-se, graças) Vou...
-          (fingindo-se esposa exemplar) Pra eu te acordar depois...
-          (minha esposa é exemplar) Das sete?
-          (filho da puta! filho da puta!) Do teu enterro, desgraçado!
-          (doeu o tapa no braço) Quê?!
-          (injusto, sujo, egoísta) Você me acorda e logo dorme! O que você pensa da vida?!
-          (convença-se, e pare de me encher) Pois durma comigo...
-          (eu quero, eu quero, eu quero!) Durmo sim, se formos acordados!
-          (ainda isso?) Agora?
-          (não tem hora certa) E que horas?
-          (esquece – vira-se de vez) Quatro e vinte, já...
-          (prático e egoísta) Homem!
-          (romântica e complicada) Mulher!...

...TIC-TAC...

CRiga.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Dívida


De você, o elogio...

Eu te devo tanto, eu sei,
mas no final das contas
acho que não muito.

Muito é uma palavra
que eu gosto demais.

CRiga.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Primavera paixão


Mal te vi, nem um oi
nem um tchau.

Se me quer, bem ou mal,
beija a flor que quis te dar.

Assobie a um sabiá
a mensagem devolvida
pelo pombo aos correios.

Há flores e pássaros na estação que já vem.
Há você passando tão bonita pela praça, meu bem,
volta, devolve meu sorriso –
me devolve ao início
quando tudo era
apenas primavera.


CRiga.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Fonte da juventude


Busquei de longe o teu brinco
brincando de amante
num segredo de sorver orelha.

CRiga.

Bienal


Palavras me roem o calcanhar,
eu caminho sílabas acertando o passo.

Comem pela beirada,
correm licor pelo canto da boca.
Corroem, ácido sulfúrico,
o recheio do bombom.

Palavras se movem se inovando
a cada segundo, eu respiro frases
filtrando a poluição.

Palavras morrem no fim do dia
no fio do cabelo
sibilando baixinho
obrigado
uma poesia.

CRiga.