quarta-feira, 29 de junho de 2016

Dó, Si

Eu não tive o brinquedo que pedi,
mas vi meu Noel sem jeito
quando contava migalhas do bolso.
Ele era muito bravo,
um adulto de dar dó.

Eu comi o x-salada que queria,
ela sacou da condução a ficha no caixa.
No balcão da lanchonete
a coca-cola foi pela metade
oferecida por um adulto com dó.

Eu vi meu vô pelado na sala.
Ele assoviava, nu com sua dor.
Criança, eu não sabia
o que era sentir dó.

Dó de mim
minha vó prometeu me defender,
bola de meia em cheio, vidraça quebrada,
quando mamãe chegasse cansada.

Dó, ré, mi
faz favor de cantar pra mim
um sol lá no meu futuro?
Pode ser de si, o melhor?

CRiga.


terça-feira, 28 de junho de 2016

Poesia de computador (parte 2)


Saiu com pressa
adulto em busca de assunto
na papelaria do beco do Centro da cidade.

A mocinha crente bonitinha
já nem trabalhava mais lá.
Voltou clandestino escondendo na blusa
um novo caderno azul
brochura mais bonita
que na juventude de bar em bar.

Queria mesmo desatar novamente
aquela poderosa cachoeira poética –
água explodindo nas rochas do espírito,
cada cristal espocando no ar
marcando linhas, um poema por minuto.

Verdade
é que nenhum novo caderno azul
lhe daria de volta a vida pulsante –  
a vida já escrita
não dá segunda parte de romance.

Os petardos viraram mono letras estéreis,
a força das águas, um banho quente vulgar –
apenas dormir sem mais sonhar
com a moreninha da quinta série.

Agora apenas a sombra de um pai ausente,
é ela quem maltrata os filhos do filho;
agora apenas o sorriso de uma mãe sem sal,
descobriu-se açúcar tardio no café já frio.

Criança precisa de carinho e de caderno novo
pra rabiscar e colorir faz-de-contas.
Precisa do brinquedo escrito na carta
do papai que não o Noel,
precisa de véu de cachoeira no verão
e de bolinhas de sabão.

Eu não preciso é dos bits desbaratinando
estas tardes agora perdidas,
procurando sentido no canto das palavras.

Não preciso deste homem feito
desenterrando memórias de computador.

CRiga.


segunda-feira, 27 de junho de 2016

Qualquer coisa que se sinta

Veio procurando verdades
saia xadrez e meia preta,
eu, inventando afazeres e teorias,
só te via, só havia você.

Tua verdade corre corriqueira nos olhos,
um segundo
e uma vida inteira.
Minha verdade é papel de papelaria.
letras enlatadas pro jornal do dia.

Verdade daqui mal importa, babe,
será história descartável
pras pessoas sem histórias.

Corriqueira nos olhos, que seja,
a verdade é do tempo imemorial –
eu beijando tua orelha piercing
e tatuando um sonho
de vida inteira pela frente.

CRiga.


quinta-feira, 23 de junho de 2016

Procissão

(republicado ao amanhã, dia 24, de São João) 


Destrua os olhos roxos
querendo esconder pecado,
o mais pecado dos pecados
ousar não ter pecado.

O suor do santinho a caminho
daquela fontezinha artificial
não purifica o asfalto caro
amanhã forrado de santinhos
de campanha eleitoral.

Os fogos do céu são bonitos
tão bonitos quanto o fogo
debaixo das saias das meninas.

Não creio em fonte, creio no fogo
que não mente nos olhos roxos
que não sente por pecar
e que vive santo, sem machucar.

O pecado mora aqui mesmo
não precisa procurar ao lado...

CRiga.

(Barueri, dia 24 de junho de algum ano)




Ilhado

Garoa
agora
brinco
com teu nome
soletro
a água escorre
a boca seca
já grita teu nome.

Chove
a água corre
eu parado
molhado mais na alma
que no corpo cansado,
você não vem
tudo bem!

Vem a tempestade
na verdade
eu tenho um guarda-chuva
mas nunca tive você.

CRiga.