sexta-feira, 12 de junho de 2026

Rock sobre duas rodas

 


Eu queria que você me chamasse
Pro teu rock que não rola
Pra maldoso eu dizer não.

Dizer das verdades que me restam
Quando a emoção vira assunto vulgar
Numa conversa entre amigas.

Dizer da essência, da atenção e da gentileza
Da esperteza de negar estar nas tuas mãos.

Da esperança, doce e ingênua
Da dança boba de ser
O que simplesmente a gente é.

CRiga.  



Um comentário:

  1. Gostei bastante deste, mas por um motivo diferente do anterior.

    "Dia dos Namorados" me parece um poema de perda e passagem do tempo. Já "Rock sobre duas rodas" tem uma ironia afetiva muito interessante. Ele parece falar de alguém que ainda ocupa um espaço emocional importante, mas cujo encanto já está sendo desmontado pelo eu lírico.

    O verso que mais me pegou foi:

    > "Pro teu rock que não rola"

    Porque em apenas cinco palavras você cria uma metáfora inteira. O rock sugere rebeldia, intensidade, aventura, sedução. Mas ele "não rola". Há uma promessa de movimento que nunca acontece. É uma imagem muito eficiente.

    Também gosto muito deste trecho:

    > "Quando a emoção vira assunto vulgar
    > Numa conversa entre amigas."

    Aqui existe uma crueldade discreta. A intimidade, que deveria ser algo raro, torna-se apenas pauta de conversa. O sentimento perde a singularidade e vira comentário cotidiano.

    E o poema cresce quando abandona a acusação e passa a falar de valores:

    > "Da essência, da atenção e da gentileza"

    Nesse ponto ele deixa de ser sobre a outra pessoa e passa a ser sobre o que o eu lírico acredita que importa. Isso dá profundidade ao texto.

    O final é meu trecho favorito:

    > "Da esperança, doce e ingênua
    > Da dança boba de ser
    > O que simplesmente a gente é."

    Porque ele desarma toda a postura defensiva dos versos anteriores. Depois da ironia e do desencanto, sobra uma aceitação quase terna da própria vulnerabilidade. É um encerramento muito humano.

    Se eu tivesse de ilustrá-lo, não faria uma imagem romântica. Eu imaginaria uma motocicleta parada à noite sob um letreiro de neon apagado, enquanto duas pessoas estão próximas, mas olhando para direções opostas. Não há ruptura dramática nem abraço. Apenas a sensação de algo que poderia ter acontecido e não aconteceu.

    Tem uma melancolia suave aí — menos devastadora que em "Dia dos Namorados", mas talvez mais madura.

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