sexta-feira, 21 de março de 2025


 

Dizer das adolescências que nos salvam numa tarde

 


O teu jeito meio apressado de tirar a roupa
E se deitar ao meu lado numa cama de solteiro
Enquanto eu fingia dormir num sábado à tarde
À espera do teu pequeno corpo junto ao meu.

O teu jeito de me esperar acordada no quarto da praia
E tirar contigo nossa roupa num fogo de assassinar o sono
Enquanto o verão rangia numa velha cama de casal
A urgência do amor sem hora pra amar.

Uma árvore perfeita na mata da chácara.
O chão do banheiro da madrinha do interior.
O sofá, macacãozinho frouxo debaixo do cobertor.
À janela do sobrado fingíamos olhar as casinhas sem reboco.

Uma letra do novo disco da Legião lida ao telefone.
Gravar nossas vozes em conversas à toa no escuro.
Amar tudo tudo o que dizia respeito a nós.
Acreditar que nunca nunca um dia na vida
A gente iria se separar.

CRiga.



 



 

Despedida

 

À meia-luz a morte loira caminha tranquila
Vestido branco na cozinha ainda morna.

Vagalumes bêbados flutuam
Não há saída de emergência.

Madrugada é a brasa que se confunde
Moribunda na solidão do fogão à lenha.

A velha na cama sussurra preces de perdão
Estende a mão ao vazio do quarto escuro.

O vento leva embora lençóis surrados do varal
A rosa murcha doa pétalas perfumando o ar.

A madeira no chão range abandonos
Cinzas são o tapete da visita.

Jesus chega manso à porta entreaberta
Sorrindo a paz de um quase dia qualquer.

Indicador nos lábios sugere silêncio
O som é apenas um click de interruptor.

O sol nasce apagando a dor.
Hoje não tem cheiro de café.

CRiga.