quinta-feira, 19 de maio de 2022

Engula a vida

 


Pode ser caco de vidro -
diamante sofrido
ou copo americano.

Importante é engolir
com a alma do garimpeiro que agradece
a pepita do dia.

Nunca com o desespero
do alcoólatra no balcão de um bar.

CRiga.


quinta-feira, 12 de maio de 2022

Um outono sem conspirações

 


O outono e sua faca cortante
de ódio contido.

Frio seco feito lâmina na cara que encara
o caminho, um doce crime
licor de ácido na boca da noite.

Céu de estrelas atrás da fumaça,
a feia urbanidade vira poesia.

O dia uma boba fuga prum café
subversivo, na esquina do beco.
E com a ex-secretária do velho partido
tramar revoluções embaixo de cobertores.

O outono e sua face de sensações
contra o sentido da areia da ampulheta.

Violeta murcha, rosa que não a vermelha.
Dor no peito que não o sangue
da autoritária bala de borracha.
Estanque o desejo, guarde o frio seco
quase sangrento no fio da faca.

O outono e seu eterno vinho pela metade
escondido embaixo do casaco da cidade.
Já não somos mais tão jovens,
não temos mais conspirações.

O outono agora é só a impressão
da tola importância que demos às boinas,
cadernos nos bares
e poéticas revoluções.

O outono e sua faca cortante
de tantas desilusões.

CRiga.


segunda-feira, 18 de abril de 2022

Lírica acidental

 


Pus letras
puzzle
quebrei cabeça.

Veia à louca
sangue violeta
e letras pus.

No momento estanque
louca sobre a mesa:
a lírica perfeita!

CRiga.


quinta-feira, 7 de abril de 2022

Dolores Soul

 


Não me deixe assim tão solto
alma que brilha feito estrela falsa
num spot caseiro artesanal.

Na balada do soul
eu só quero saber
se você ainda me ama.

CRiga.


quarta-feira, 6 de abril de 2022

Antídoto

 


Trazer azuis cadernos pra mesa de um bar
agora parece tão demodê.

Tem uns poucos que te olham, pensam
que você está numa conversa importantíssima
interessantíssima
à luz irritante do seu celular.

São apenas palavrinhas formando
um jogo poético de sobreviver
quieto,

enquanto ninguém divide ilusões
decepções, amores e dores
ou apenas a garrafa sobre a mesa.

CRiga.




terça-feira, 5 de abril de 2022

Platô

 


Havia sim uma certa certeza
que você passaria por aqui
com seu belo e rico namorado.

As impossibilidades é que nos movem à ternura
de reinventarmos noites, outonos
e temas de poemas.

CRiga.




Abril

 


Tempo que volta,
noite que a alma fria quer se esquentar
num meio calor fora de época.

Noite de falar com estranhos.
O domínio sobre as paixões
não interessa mais
que a brisa de um outono preguiçoso
escrevendo algo que não seja a correção
da repetição dos dias.

Havia a noite seca e fria,
poesia pronta pra se apaixonar de novo.

Havia a necessidade pura e simples
de encantar-te com um verso nem que fosse velho.

Eu só preciso me apaixonar de novo
pelas coisas que sempre fizeram de mim
este poeta de infernos astrais.

CRiga.