terça-feira, 1 de setembro de 2020

O segredo entre os lábios


À busca-captura do espião,
anarquiza, devassa,
e na ponta da língua
arma a louca peleja de esgrima.

Depois denuncia, devaneia:
boca no mundo, sorve o abrigo,
o doce crime sabor pêssego morno
ou veluda manga da estação.

Na invasão incendeia o esconderijo
consumindo os segredos quentes,
e o fogo toma todas as paredes
até a queda depois da explosão!...

A chama que resta, então morna,
só emana saudades metafísicas...
a relva molhada, o cheiro de chuva,
o gosto da fruta que sacia.

CRiga.


segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Quarenta


Agulha travada
na sujeirinha do velho vinil –
uma nota só no solo triste de uma guitarra
e num grito mixado de solidão.

Meio emeéle
no vidro do perfume francês –
um cheiro só na fragrância de perder os rumos
insistindo em guardar lembranças.

Fotografia desbotada
no bolso do surrado jeans –
uma cor de pó gritando no assoalho comido,
um nome rangido, abafado.

Botão de rosa pendurado
no caule quebrado do abandono –
plantas revirando em nó no sedento jardim do quintal de pedra
invadindo a casa, um dia lar.

Morri, vivo,
procurando tolos atalhos
nas coisas que mofaram,
nos objetos sem objetivos.

Um dia desistiram de mim,
sem me avisar, não foi por mal –

sexta-feira eu programo
meu próximo inferno astral.

CRiga.


sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Já que estou aqui


Meu dedo nem um dia congela
no medo da pressão ao ar.

Nada me faz mais falta
do que sentir a falta de alguém.

Aproveita agora
amanhã teus planos serão tapetes.

Aproveita sempre.
Ontem os teus sonhos
foram só desenhos de computador.

A memória sempre falta, meu amor...
Vamos então trocar a roupa
e sair de noivos na noite nova?

No reduto reciclamos discursos
e só levamos um níquel de reconhecimento.

O capital marca com arte
a arte de esconder como capitalizar.

A morte é pena capital
e ela é tão mais fácil...

Afinal o que mais valia
senão viver enganando o não?

CRiga.

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

Conselho


No que a gente concebe com experiência
nasce o desafio com a cara do padrinho.

Vai na marcha que o asfalto permite.
Vai um pouco além no limite
que a curva sempre quer te dar.

CRiga. 


quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Entrevista com amigos


Alegria contida é experiência.
Medo é experiência virar vício.

Honra é poder escolher
não fazer mal a ninguém.

O tempo avermelha o seco
enquanto sangra meu nariz.

Não quero fazer o que me dá na telha
nem nas coxas ou no telhado bicolor.

Eu quero perguntar para o meu tio construtor
qual feitiço faz pra ficar igual.

Só com tempo.
Com tempo pesquisa...

Abandonei meus leões?
Parece que sim, eu sei.

Tenho medo de ser devorado
ou devorar as emoções?

Não sei como se chama isso.
Se de sorte loucura ou de cisma.

Já fiz gol contra que não valeu.
Já fiz gol de mão na prorrogação.

CRiga.


Tumulto


Meus olhos procuram você
e você me acusa
de não pagar o teu passado
com a moeda do assassinato
dos meus sonhos,

e meus olhos continuam
no tumulto
ainda procurando aquela você.

CRiga.

terça-feira, 25 de agosto de 2020

A ditadura da desconstrução


A mesma velha receita do destruir –

discursos combinados
ataques arranjados
um vale-tudo que engole
o caolho que tem fome.

CRiga.