sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Espreita

Antes de entramos naquela porta sem volta, sem velhos anjos juvenis a acobertarem nossos pecados antes liberados, deixe-me dizer das trapaças da vida e das esquinas, das ruas se essas ruas fossem minhas.

Eu te esperei sem tempo de olhar por mim – flores às mãos e um poema de Drummond. Hoje e há muito sou mais um conto de Caio Fernando, talvez tristezas novas, talvez ternuras velhas, mas no sangue corre aquela impressão de década de 80 empoeirando ideais dos 70.

A questão é: poderemos ser jovens novamente? Não, nunca poderemos! Conservar o espírito é obrigação do ser humano, mas não dá para escondê-lo daquele ácido cotidiano, cada gota a cada dia, depois de anos corroeu-se boa parte do brilho antes reservado a um amor juvenil.

Melhor então concentrar-me em consertar as esquinas inteiras, não quebradas por tua simples onipresença enquanto te esperei. Melhor cuidar de ajudar homens da lei a mudar o nome daquela rua, como se aquela rua fosse minha. Deixemos aquela porta guardada feito foto desbotada no bolso roto, porque o resto são memórias que não ajudam a viver, às vezes só sobreviver. O resto do caminho pela nossa rua se fez e ainda se faz avenidas e alamedas, becos e trincheiras. Espreita.

O que há é isso mesmo: a espreita melancólica e os velhos anjos juvenis, hoje adultos que seguram nossas mãos na direção “correta”; as trapaças da vida e as ruas se essas ruas fossem minhas só pro meu amor passar – mas passar apenas feito corte e cicatriz. O sangue ainda escorre um pouco às vezes, mas vai passar, meu amor, vai passar, mantenha teu caminho, teu brilho sem ladrilho, tua porta entreaberta, porque tudo passa feito febre, tudo passa, meu amor, menos você na minha rua, tudo bem, essa rua já sou eu, esse asfalto já sou eu.

E a espreita é cega. O asfalto já trincou. A rua vai fechar. As casas vão ser abandonadas. E as portas vão ranger a dor do abandono feito aquelas ruas de faroeste ou em filmes de ficção, quando um vírus destrói a cidade.

Tudo vai ficar bem, meu amor, tudo vai ficar…

CRiga.


quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Tapete de Deus

Todos os homens a chamavam de complicada. Ela não se julgava assim, e até queria entender porque os homens achavam isso dela. Será que uma mulher de mais de trinta, com um filho de seis anos de idade, do casamento de cinco anos que não deu certo, tinha alguma coisa a ver? Não que o filho fosse “revoltado, sei lá”, ou até não compreendesse que a mãe podia achar outra pessoa p’ra ser feliz, afinal, por muitas vezes xeretando atrás da porta a viu chorar de sofrimento, e uma criança sabe quando a mãe chora de sofrimento. Daquelas vezes que ela aparecia com “novos amigos” em casa, ela tinha um sorriso daqueles que há tempos não se via. Não era bom ver a mamãe sorrir? Até ficar com a Helena, a vizinha amiga da mamãe, valia a pena para ele. E para Helena também, que adorava o garoto.

Então por que todos os homens a chamavam de complicada? Não tinham sido tantos assim depois do casamento, três sérios, apenas. Gérson, o primeiro, cansou daquele “seu jeito frio”, “não liga, não dá notícia”. Depois, com o Luiz, tentou ser diferente. Ligava no celular pra dizer que sentia saudades, e até o sexo já rolava com mais naturalidade. Só que Luiz era “do mundo”, como disse na ocasião em que terminou o relacionamento, ele gostava de sair com amigos e amigas, ir a shows de rock, puxar um baseado, “não me leve a sério, ainda mais você, vivida, com um filho. Não vai dar certo, foi legal”. Ela já tinha provado tudo isso, e mesmo que não procurasse desesperadamente um namorado, queria um cara que fosse um pouquinho, “só um pouquinho”, caseiro. “É pedir muito, meu Deus?”.

Não, não era. Gabriel, o terceiro, era um cara divertido, gostava de ir a teatro, cinema, boas festas, e gostava de almoço aos domingos em casa. Era inteligente, micro-empresário – dono de uma sex shop – e sensualíssimo. Adorava o filho dela, brincava, conversava de tudo. “Perfeito”. Poderia ser só dela, se não descobrisse mais tarde que o cara era bissexual... “Não dá, não dá! Esquece!”

Começou a pensar que o problema estava com ela. Ligou pro ex-marido pra pedir conselho. “Porra, você me acha complicada também?” Não, não achava. “O que há de errado, por que então nosso amor acabou, você casou de novo, é feliz, e eu tô na merda?” O ex não soube responder, e também nem podia, já que a esposa atual já xingava do outro lado do sofá. “Preciso desligar”.

Aquela hora seu filho dormia, no tapete da sala, depois de assistir a uma fita de desenho animado. Dormia no tapete, estirado, feito um deus grego que esquecera de crescer. “Este, sim, é um homem de verdade! Dorme no tapete, enquanto a mãe nem na cama consegue dormir”. Deitou-se ao lado dele, abraçou-o com carinho, e recostou a cabeça no canto da almofada em que o garoto dormia. “Você não ia me levar p’ra casa da Helena, mamãe?” “Hoje não, meu amor, não vale a pena sair... Vamos dormir, e amanhã a gente vai ao cinema”.

Dormiram juntos, no tapete, naquela noite de verão. Muitas daquelas noites foi à caça de um homem, buscando aprender mais. Naquela noite resolveu dormir no tapete, com o pequeno grande homem, o único, que a compreendia. Dormiu como há tempos não dormia.

CRiga.
 

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Ar rarefeito


Não espero nada.
Um canto de passarinho,
um silêncio confortante.
O lugar que mais amo,
a lembrança mais singela.
O perdão de fato, teu tato no meio na madrugada densa.
A festa.
Uma fresta no muro severo
deixando a brisa consolar o rosto.
Um gosto, qualquer gosto,
um jeito de você me sentir de novo.
Um escrito maldito que preste,
que peste de mil vidas espero -

um sol que me silencie,
uma noite que me denuncie,
um querer viver consciente
de que tudo vai passar, não vai, nunca vai…

Vejo carros passando em frente ao bar,
estou sozinho, sei que ninguém vai chegar,

o mundo inteiro poderia parar, ar rarefeito,
eu tento não esperar.


CRiga.
(Ali Pub)


segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Você precisa decorar aquela velha canção


Há um céu azul de nuvens desintegradas, morrendinho, o sol tá indo pro Japão.

É quando a gente torce pro sol ficar mais um pouquinho e dar mais uns acordes no imaginário violão.

Mas vai ficando escuro, aos poucos, e a noite faceira dá aquele sorrisinho de tou chegando…

É quando pinta a dúvida se você nasceu pro dia ou pra noite…

Mas logo vem o veneno: aquele ar difuso, aroma cortante na brisa fresca, musical, que nunca vai te agredir, nunca vai deixar de sorrir feito figura de mãe te sorrindo na lua.

É quando a rua começa a te chamar, colega, amiga, amante! E você vai, sem pressa, sem compromisso, criança tateando aprendendo a andar, cair, levantar de novo, sorrir, cantar, sorver, amar por um segundo, chorar, tomar o sorvete e a água da madrugada, e finalmente se acalmar.

Algo parecido com sono vem te perturbar. E você reluta, nunca a tarde dessa noite vai te derrubar! E você levanta, dança feito louco na avenida vazia, até queria ouvir alguém buzinar. Amigos cantam uma velha canção, você não sabe a letra inteira, mas acompanha no refrão.

É quando você vê mudar aos poucos a cor do asfalto. Mais claro, algumas poças denunciam uma luz que não a dos postes amigos de apoio. E como você fazia tempo não olhava mais ao céu, resolve conferir se a ampulheta ainda corre na lua e nas estrelas - mas um azulzinho marinho insiste em desbotar a noite.

O sol começa a gargalhar na sua cara, soberano, vencedor. Pra você acabou, meu chapa, o português já tá assando a primeira levada de pão.

É quando você vira de lado, vê a motinha pipocando na esquina, entregando os jornais com as notícias de ontem. Mas, como sempre nunca derrotado, você toma de volta do universo louco a ampulheta parada, sequestrada. E num gesto a la mais doce revolución, fincado último soldado da trincheira, vira de novo a areia correndo a vida tudo de volta:

Cadê o violão do novo luau? Cadê a letra daquela velha canção que você ainda precisa decorar?!...

CRiga.


sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Moribundo coração

Há poucas paixões.
Poucos ombros pousados na brisa,
caminhantes tranquilos na praça
Um brilho por vezes falso brilhante,
fácil sorriso.

Há verdades que não mudarão seus dias,
então por que digladiar?

Há mensagens que não chegam,
outras são falsas.
Outras estão disfarçadas
em codinomes de amores impossíveis.

Há de tudo um pouco
que não deixa um velho brilho rebrilhar,
uma velha rua ladrilhar.
Um velho pulso pulsar aquele sangue tão vermelho
no cateter do caráter, salvando feridos
colando cacos de corações partidos.

CRiga.