sexta-feira, 5 de setembro de 2025

Peso para papel

 


Você me deixa muito solto,
Morto vírus no ar que tu respiras.

Inspira-me de novo,
Me leva pro teu sangue –
Há de reviver de novo
O amor contente, eternamente
Enquanto dure.

Este amor que hoje é apenas
Um ente querido acamado,
Calado esperando a cura
Da tua sã indiferença.

𝐂𝐑𝐢𝐠𝐚.



quinta-feira, 4 de setembro de 2025


 

Fora de moda

 


Eu sobro nos ares de uma tarde sem direção
Caibo no teu bolso furado, navego na sarjeta
Um barquinho de jornal feito de notícias
Que não importam mais.

Alguém lava um quintal na manhã depois da festa
Eu escorro pelo ralo, o gato silencia, tem dó de mim.
No fim da rua encontro os restos das felicidades
Que um dia desejaram ser eternas.

Eu dobro a esquina que arde em meu coração
Eu sei que você não estará mais à espera num bar
Apreciando um vinho e as margaridas da velha praça.
Este ano os ipês são saudades derramadas na calçada.

Ninguém mais rega as plantas que enfeitavam o portão
Eu corro, me agarro ao barro que resta seco no jardim.
Eu broto folha quebrada na fresta do muro trincado
E as ervas daninhas me impedem de ver o sol.

Quando a primavera finalmente bater à porta
Eu já serei a foto desbotada no porta retrato quebrado
Mofado pelo DNA cinza do tempo do inverno, cravo velho
Colado na sola do teu novo sapato da estação.         

CRiga.




quarta-feira, 3 de setembro de 2025


 

A boca

 


Quando cala, instaura a dúvida.
Se fala, é preciso cuidado
Inclusive para ouvir.

Pode declamar poemas
Ou xingar o motorista.
Dizer que ama
Que tome cuidado na estrada.

Quando beija no rosto é carinho.
Nela é paixão!
Às vezes só selinho
De carinho com paixão.

Engole sapos e outras bocas
Mamilos e mangas da estação.

Faz biquinho na selfie
E não sabe se portar sozinha no metrô.

Quando sorri é tanta coisa...
Gentileza.
Leveza.
Amor.
Sedução.
Felicidade.
Lembrança boa.
Um olá.
Um tchau.
Mal, difícil ser
Geralmente é muito bom.

É maldita, é da noite.
Cochicha preces na igreja.
Grita um nome ao portão.
Serve pra ir a Roma
Ou pra puta que pariu.

Sozinha sente a lágrima correr salgada
E engole o choro disfarçando a dor.

Às vezes nunca falou
E as mãos fazem a vez
E a voz.

Às vezes fala demais inclusive com as mãos
Que digam os nossos italianos!

Bate com ela é baixaria.
Dela pra fora pode até não ser sério
Mas às vezes magoa.

Dos buracos da cabeça
É o único sem par.
Mas quando pareia
Incendeia!

Numa ceia dizem que traiu.
Em outros tempos tristes
Entregou inimigos à fogueira.
Hoje engana fiéis
Com fome de Verdade.

E canta!
Inclusive, paquera
Morde e assopra.

Dilacera por ódio
E por amor.

CRiga.




segunda-feira, 1 de setembro de 2025


 

O segredo entre os lábios

 


À busca-captura do espião
Anarquiza, devassa
E na ponta da língua
Arma a louca peleja de esgrima.

Depois denuncia, devaneia
Boca no mundo sorve o abrigo
O doce crime sabor pêssego morno
Ou veluda manga da estação.

Na invasão incendeia o esconderijo
Consumindo os segredos quentes
E o fogo toma todas as paredes
Até a queda depois da explosão!...

A chama que resta, então morna
Só emana saudades metafísicas...
A relva molhada, o cheiro da chuva
O gosto da fruta que sacia.

CRiga.