quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025
Música francesa
A moça canta tão doce
Palavras que não sei –
Covardia é discutir amor
Com uma cantora francesa.
Triunfo nem Eiffel
Nada rima sobre o papel que assumo.
Lábios em bico pronunciam erotismos.
Olhares furtivos me convidam à alcova.
A moça canta tão segura
Tudo o que quero imaginar –
Varia entre Notre-Dame e uma cruz
E os becos charmosos da Cidade Luz.
Sob o arco ou a torre
A rima pobre é barco ou porre.
Covardia é faltar elegância pra te cantar
E enrolar as línguas num idioma só.
CRiga.
terça-feira, 11 de fevereiro de 2025
Eu sou um velho palhaço
Muitas já foram as histórias de palhaços apaixonados.
Aqueles que já sem a maquiagem vão à porta do circo esperar a amada, que passa
lotada dizendo “que palhaço idiota”. E assim nasceu a lágrima desenhada junto à
tinta colorida de um rosto que preferirá sempre esconder a dor.
Eu não espero que você me ame. Pra ser sincero, nem que você
ria. Tentei ser mágico só pra poder usar smoking preto, mas o coelho da cartola
mordeu meu dedo e riram de mim do mesmo jeito. Tentei acrobacias no ar, caí na
rede e depois, de ricochete, no chão de pó de serra. Até o leão nem se moveu
quando fui eu o domador.
A dor do palhaço ninguém vê – afinal, a ideia é ver só
alegria mesmo. Pobre palhaço, não pode nem se apaixonar! Fora do circo anda de
bar em bar, ainda colorido, descolando um trago aqui outro ali, até cair
embriagado na sarjeta e crianças chutarem seu traseiro de manhã. Hora de ser
sombra.
Minhas rugas não somem mais com a maquiagem. Agora nem minha
dor. Meu número no picadeiro mudou – uma tragicomédia que ninguém entende.
Ninguém mais ri. Enfadonho espetáculo, eu me equilibro nos minutos e meu olhar
vago denuncia a falta de saco de fazer criança rir.
É quando vê o milésimo amor da sua vida lhe sorrindo. Pula,
sacoleja, cambalhota, grita. As risadas reaparecem. Ele é o palhaço do cartaz
novamente! Vem a sirene, o balde de água na cara, deveria acordar do devaneio
incontrolável, mas algo de arte ainda o move. Ou seria amor?
Eu te amo, você não vê nestes olhos? Não, volte pra trás,
ainda tenho truques pra te conquistar. Quem é esse rapaz loirinho do seu lado?
Porque você tá de mãozinha agarrada com ele? E esse beijo, não era pra ser meu?
Volte, mata essa bicha louca do caralho e vem que a gente foge com o alazão do
circo!... Sua puta!...
Muitas já foram as histórias de palhaços apaixonados. Poucas
aquelas que deram certo. De volta ao camarim de terceira grandeza, dois por
dois, um balde d’água e um espelho trincado, já nem mais chora as desilusões de
cada noite. O dono do circo lhe dá a mixaria da quinzena e mais uma bronca: “um
espetáculo mais esquisito que o outro. Se endireita, seu palhaço velho!”
Eu sou um velho palhaço.
quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025
Melodrama
Eu queria, podia
Te dar aquelas flores.
Mas nada mais me resta
A não ser a festa do meu silêncio
Sempre te dizendo adeus.
À sua procura
Visitei túmulos de poetas que morreram jovens
As costas nuas nas paredes úmidas das tavernas.
Fui ao diabo com flores e dores de amor
Ele sorriu e abriu o portão pra eu voltar.
Eu te daria flores, eu queria
Poder ser triste pra ser sincero um dia.
Eu ainda espero estatelado sentado à calçada
Com aquela margarida
Naquela rua se essa rua fosse agora
Fosse minha, fosse nossa.
CRiga.




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