quarta-feira, 20 de março de 2024

Desmofando

 


Enfim uma manhã que novamente te encontrei
Te procurei como num sonho de juventude que vagava pela cidade
Em ônibus lotados, calçadas sujas e noites despreocupadas.

Plantar em ti as palavras que precisamos pra sobreviver
Nesse louco mecanismo que assassina o lirismo.

Mesmo que ninguém nos ouça nos labirintos da nova flor
Ninguém merece conter a dor ou a alegria
De amar mais uma vez, por mais um dia.

 CRiga.


terça-feira, 19 de março de 2024

Outono pó



De tudo o que plantei sobraram poeira
E uma solidão que faz tão mal
Feito o frio que vai chegar.

Polir, então, o que ficou de bom.
A gente ainda tem aquele vinho.

A gente ainda acerta o caminho.
Junta forte as mãos feito futuros namorados
E protege nossas plantas que sobrevivem
E ainda crescem no velho quintal.

CRiga.


Vulcões

 


Enquanto desfilam dedos sorrateiros
Os primeiros sonhos se incendeiam
Dentro da alma em chamas vermelhas.

Tudo se perde no terremoto da carne!

Não há paz eterna, só restam vestígios úmidos
A saliva doce que escorre dos lábios tortos
Mortos depois da erupção.  

CRiga.


De outonos

 


Quando o simples aguça a alma,
Fatal é a força de só sobreviver.

Colher frutas e bons amigos
Valem mais que palavras frias
Perdidas numa rede social.

CRiga.


Lirismo para um dia

 


É branca a manhã do teu olhar, sereno
São várias as possibilidades de um poema.
À mesa o café recria a força, embevece o querer.
Alimento é passar o dia inteiro com você.

CRiga.


quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

A chuva dos cinquenta

 


Enquanto a chuva cai num chavão eterno
Minha rima no inferno quer se afogar na certeza
De que o excesso vale mais que o impresso velho
Colado no poste mijado pelo vira-lata amigo.

O conhaque sob o sobretudo denuncia –
São Paulo ainda é a mesma amiga linda e traiçoeira.
Eu me apaixono e alguém me derruba fácil na sarjeta
Só com um desvio de olhar esguio.

Quando eu morrer, Mário,
Quero sirenes nas lojas de discos que não existem mais.
A inocência daquela juventude de não ter como voltar pra casa
Na madrugada depois da noitada embriagada de esperanças.

Eu acariciava seu rosto com as costas das minhas mãos,
Havia a poesia serena de um filme italiano.
No pulso fino havia um reloginho que foi roubado,
No peito lindo havia um segredo nunca desvendado.

E eu, garoto dependurado nos ônibus das madrugadas frias,
Não me importava com nada nada.
Atravessava cidades no meio da semana que não me cansava
Só pra ver você sorrir pra mim.

Hoje a chuva cai distraída, provoca um ai.
Cada gota que cai pesada
Parece uma lágrima que um dia eu chorei.

CRiga.




domingo, 8 de outubro de 2023

Fetiche

 

Enfim a gente encara porque a cara cansada
Fez a barba.

Enfim a gente se embriaga porque a bebida
É a mais barata.

Enfim a gente se encontra de novo na noite
A gente plantou encontros dissonantes.

Enfim o jardim deu aquela flor.

Como é maravilhosa a impossibilidade do amor.

CRiga.