quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Conviver com os erros

 

A vida acordou atrasada

e procurou por você
que foi embora.

A vida
é simples agora.

CRiga.
(Caderno Azul, 1997)

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

Fronteira

 

O trem no subúrbio passa implacável
como um monstro de aço.
Estremece feito terremoto
as casinhas de papel.
Sacode os frágeis tapumes
em forma de abrigos
da favela fantasma.

Mas a arquitetura improvisada,
arte eternamente sem dinheiro,
não cai.
Imponente (do seu jeito) joga nas caras
a sofrida sobrevivência.

Porque a pobreza é assim:
enquanto não descarrila o trem
pra dentro da favela fantasma,

tudo é
cotidianamente
apenas transparente.

CRiga.
(Caderno Azul, 1997)



terça-feira, 10 de novembro de 2020

Bienal

 



Palavras me roem o calcanhar,
eu caminho sílabas acertando o passo.

Comem pela beirada,
correm licor pelo canto da boca.
Corroem, ácido sulfúrico,
o recheio do bombom.

Palavras se movem se inovando
a cada segundo, eu respiro frases
filtrando a poluição.

Palavras morrem no fim do dia
no fio do cabelo
silabando
sibilando baixinho
obrigado
uma poesia.

CRiga.


segunda-feira, 9 de novembro de 2020

Testamento

 

Calejei emoções.

Congelei carinho
aquele que um dia
imaginei pra mim.

Escondi no sótão
aquele beijo de boas-vindas
e o álbum da memória.

Plastifiquei o guardanapo
uma boca batom de boa sorte.

Enterrei-me besouro que voará
a primeira e a última noite
até varrido no dia seguinte.

Deixei guardado sobre a caixa do cuco
o mapa de um dia você me reencontrar.

CRiga.



Ladrões

 

Desde tempos que busco na memória
nossa história não é das melhores –

algozes nos matando nas trincheiras
freiras nos amaldiçoando pelos caminhos
ninhos de cobras nossa cama
lama nos campos nosso lar
mar de baleias e peixes mortos
tortos anjos bebendo cachaça
praça de guerra nossa derrota
nota fria e falsa identidade
cidade que nunca é nossa
fossa no balcão dos bares
ares de inverno polonês
inglês defeituoso na fronteira
cadeira elétrica e masmorra
que porra de mil vidas nós levamos!

Mesmo assim
insistes me acompanhar.

Porque me amas desse jeito
feito filme
desde tempos imemoriais.

CRiga.



domingo, 8 de novembro de 2020

Vibe

 

Vida te empurra. 

Então me atropela.

Vide na bula.

Então me cura.

Então me culpa.

Me liberta.

São vedados os olhos de lágrima.
A verdade só abre a porta
pra paz poder se instalar.

CRiga.




Inseto

 

Coça gostoso porque um dia
essa dor de vontade de ficar
e de coçar, há de passar.

Hei de passar.

Hei de ficar
sem você precisar me notar.

Morcegos dormiram aqui.

Mariposa na madeira
engravida assombrações.

CRiga.