terça-feira, 16 de junho de 2020

Quermesse


Vida besta esta de procurar preocupação.
Bom é procurar no inverno novo
um tempo antigo de curtir no frio
o mesmo couro da velha jaqueta.

Vem que hoje tem fogos de São João
vinho quente e quentão.
Tem é fogo também debaixo
das saias das meninas –
por isso é que não sentem frio
nem nossos corações partidos.

Mas as intenções são as mesmas.
Uma Maria quer casar
uma Joana viuvar.
Quando Zé pescar o prêmio
a namorada vai enciumar.
A prima da cidade quer ursinho
e ela tem lindos olhos de um verde
que nem a bandeira do Brasil!

CRiga.


segunda-feira, 15 de junho de 2020

22h45


Ainda há tempo
nestes quinze minutos finais.

Fatais...
Não, descarto.

Os tais!
Muito menos não, desacato.

Morais.
Pode ser amanhã de manhã.

Mais quinze?
Pode ser, por que não?...

CRiga.


Lugar


Como sem raiz, vou me enraizando.
Depois que a quarentena passar
conseguiremos esperar outra
para sermos felizes aqui?

Como sem energia, vou me energizando.
Depois que sobrevivermos
conseguiremos sobreviver
em outro lugar?

Como sempre com você,
eu vou indo mais fundo.
Mas só até o raso do profundo
que a gente junto conhece bem.  

CRiga.

Assaltaram a gramática


Azidéia, minha querida!
Ainda com a, cento – 
sinto que revolucionárias
mais de cem ainda fervilham.

Não me abandones!

Pelo menos o velho verbo ainda flexiona
o bom sujeito que um dia eu fui.

CRiga.


sexta-feira, 12 de junho de 2020

Um olhar ao infinito horizonte de inspirações


Eu precisava só de um bolero
um lero de amor ao ouvido
a levar-me de novo pelo salão das letras.

Uma espuma clara a mais
na cerveja gelada no balcão –
a gente divide a boa rodada
e inclui o amigo garçom.

Um selo com figura de Drummond
pra carta que ainda ensaio te escrever.

CRiga.

As simples letras pepitas de acalmar


Não adianta mesmo coçar-se
coisas que não são tuas.
Níqueis sem rostos de presidentes
caem dos bolsos furados –
nada paga a paz de espírito.

Há um Brasil que tolhe direitos,
e até ser simples neste garimpo
custa caro como o desperdício
na Assembleia Legislativa.

Há valor às minhas letras,
não caras nem bancando
a coluna social.
Nem raras que sustentem
o carnê do falso lar.

Vá lá! – é preciso mesmo
muita simplicidade, meu amigo!
Mas não me venha com “o faxina
que virou empresário
e até um deputado!”

O valor que se paga é pepita d’alma,
a minha alma!
Ladrilha pedrinha de brilhante
ao meu amor que não passou. 
Se essa rua se essa rua fosse minha
eu não vendia, eu não vendia.

As letras pagam meu cobertor de ouro,
a alma é nua!
Esperança menina que orbita boba,
solta, singela num poema.

CRiga.

quinta-feira, 11 de junho de 2020

Alma seca feito junho


Sou capaz de encher o copo,
dar de beber à alma
assim seca feito junho?

Não é tarde
e eu te espero sem novidades.
Seus planos brilhantes me dão calma,
a alma do passageiro no melhor lugar.

Recorrer à memória é apenas correr
fugir de não sei o quê –
este bicho feio sem forma e sem letras.

Ontem eu caminhava esquinas amigos meus
desfilava um caderno azul quase roubado
por gente que não sabia fazer poesia.

Hoje sou marginal preso em mim
pelo crime maior de não aguar as plantas
e a alma seca feito junho.

CRiga.