sexta-feira, 13 de março de 2020

Psicanálise


Parece que sou mesmo assim, como todos.
Não veem a dois palmos do nariz
um em cada direção.

Eles têm seus erros
têm até seus podres, quem não?
Não é questão de perdoar
é questão de não amar.

Agora parece que é assim.
Sempre quando há palmos debaixo da terra
dizem
é que o amor grita sozinho no cemitério.

Ou quando tão frágil feito criança
numa cama ou à beira mar
inventa de contar segredos
ou pedir perdão.

Eu não sei. Eu não sinto.
Há filhos que sentem a falta dos pais.
Será que sou mal?
Será que sou pai?

Será que o coração só funciona
quando a gente vira de volta a ampulheta?
O menino que era amável
é apenas um homem perdido em si.

Ora, vamos, então me arrume um dos seus problemas
dilemas de livros empoeirados na estante
pra finalmente eu poder culpar alguém.

CRiga.


quinta-feira, 12 de março de 2020

Led contra mercúrio



O véu mais branco à noiva preferida
contra a encardida manta
que nunca protegeu ninguém.

CRiga.

Aquele novo penteado que passou pela sala


Passou a vida escrevendo coisas
que poderiam servir para algo
em algum tempo
para alguém.

Não vai morrer, não por agora.
Mas deixa ali registrado
seu profundo arrependimento.

Tem hora que a solidão é tão lucidamente companheira
que quando você pensa em fazer um chá
já está com o cálice de conhaque
nos lábios secos por novidades.

Mas não amou o suficiente.
Deixou o cabelo novo passar despercebido
pela sala da juventude, vem aqui,
deixa te dizer das coisas que não sabia...

Tem é aquela sede de beber
o sangue tão vermelho, explodir
o velho pulso no cateter do caráter
salvar feridos
colar cacos de corações partidos.

A idade traz flashes
e verdades sempre tardias.
A nova juventude não diz nada
e para quê? É apenas juventude.

Aos vinte era apenas juventude.
Aos quarenta não esperava acabar assim
tão sério, sorriso amarelo de velório.

CRiga.

quarta-feira, 11 de março de 2020

Papiro colado no poste


Andar a pé sem esperar a hora.
Falar de flores, o jardim secou
em plena primavera.

Não há muitas coisas belas pra se falar...

As flores de plástico estão caras,
O Sol nas bancas foi vendido
e agora grita mazelas
no cancelado horário de verão.

Há sempre um brasil desses aí
que nos persegue, inconveniente!
Vire logo a esquina, fuja,
brasil mendigo te dando o pão
que o presidente só sabe pisar.

O diabo amassa o trigo
pra fornada patriótica,
e Deus amansa a massa
pros discursos da patrulha.

Dá de comer ao Brasil
arroz com feijão sem pimenta
um grão de conhecimento
um sorriso de criança
uma rosa perfumada
qualquer que seja a cor –

apenas flor, nada mais,
não vigie nem invada
meu daltônico jardim.

CRiga.

terça-feira, 10 de março de 2020

Imemoriais


Desde tempos que busco na memória
nossa história não é das melhores:

algozes nos matando nas trincheiras
freiras nos amaldiçoando nos caminhos
ninhos de cobras nossa cama
lama nos campos nosso lar
mar de baleias e peixes mortos
tortos anjos bebendo cachaça
praça de guerra nossa derrota
nota fria e falsa identidade
cidade que nunca é nossa
fossa no balcão dos bares
ares de inverno polonês
inglês defeituoso na fronteira
cadeira elétrica e masmorra
que porra de mil vidas nós levamos!

Mesmo assim insistes me acompanhar
porque me amas desse jeito
feito filme
desde tempos imemoriais.

CRiga.


segunda-feira, 9 de março de 2020

Segunda-feira

Solidão é que mata!

A brisa que assovia melancólica
na fresta da porta da varanda.

O sol que ri de sua cara
numa semana que seguirá sem grandes feitos.

O barulho distante do escapamento da moto,
a raiva desses ridículos ainda é a mesma!

Daqui de cima a estrada congestionada
me dá a sensação do cárcere eterno.

Um trabalhador solitário roça o terreno
onde um dia subirão mais alguns edifícios.

Alguém irritante todo dia arrasta os móveis
na sala do apartamento de cima.

A vista que alcança o horizonte
precisa vencer prédios e casinhas mal acabadas.

O silêncio no apartamento é que mata!
Vontade de fazer tudo por você agora
e sempre um pouco mais...

CRiga.

sexta-feira, 6 de março de 2020

Fotografando espíritos


A espera parece mais longa quando a chuva cai. Meus amores, minhas dores – no asfalto molhado todos perambulam com seus guarda-chuvas, cada um com sua cor em uma via sem volta.

A espera é fera que hiberna nas trevas da alma. Ruge uma dor que ecoa do fundo da caverna úmida e que cheira a mato molhado.

Quem espera sempre dança uma valsa de solidão no silêncio da casa fria. Casa com o padre, reza com o bêbado caído na esquina.

Me espera, não vai agora. Eu tenho cartões postais em branco pra gente sonhar. Um vestido de festa e outro de casamento. Um baú vazio mofando no quarto, uma garrafa intocada de licor. Uma cama de solteiro, a gente joga o colchão no chão.

A chuva da espera molhou toda a minha casa, distraída deixei janela aberta pra alguém me invadir. Eu queria ter asas pra voar até alguém. A espera parece mais alta quando o céu se abre e o sol não traz mais novidades.

A espera se transforma, com as nuvens sombrias em torno da lua, na noite que cai da minha estante e se quebra mil caquinhos, um porta-retratos ainda com foto de revista. Um anjo azul de bibelô empoeirado, lembrança de um sobrinho que nasceu, cresceu e viajou ao estrangeiro.

A espera é acreditar em filho de virgem. Uma prece, me esquece, me marca num muro, prefiro ser Madalena. Me atira na vida mas não me espere chorar. No compasso do ponteiro do relógio parado vou te atraindo pra armadilha: serei a bruxa que vai te transformar no sapo, você será meu anfíbio de estimação e terá que esperar um beijo meu te libertar de novo. Só que meus lábios secarão com o ar cortante de outono. Estaremos presos um ao outro.

A espera é o brejo feio e fedido da floresta negra das fábulas que assustam as crianças. É a impossibilidade de contar belas histórias aos casacos pendurados na cadeira da sala de jantar. É a solidão dos deuses loucos. É o dedo em todas as feridas da trouxa autocompaixão. Rasgar a carne, sangrar líquidos sem cor, chorar lágrimas imaginárias e etílicas de guaraná. E dormir soluçando baixinho esperando o despertador tocar pra espera recomeçar com o dia sem as flores à porta.

Café amargo, janela aberta, estou pronta – que venham as cartas em branco que ontem enviei pra mim.

CRiga.