sábado, 28 de dezembro de 2019

Quatro da manhã


Os caras brigam
na mesa ao lado.

Tereza assiste
impassível
à tristeza vencer a madrugada.

Mesa de bar
em qualquer lugar
é sempre o palco
dos imperfeitos corações.

CRiga.
(Caderno Azul - 1999)



sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Efeito colateral


O soldado na trincheira
chora
a saudade da terra prometida.

Ouça o vento chorar também
e tenha tempo de ouvir
cada lamento.

Folhas de árvores mortas.
Flores boiando no céu.
O ar é raro.
A paz é cara.

A moça no jardim
implora
e a chuva não chora por bem.

A velha na cama
conversa com a luz
e Deus desliga o interruptor.

CRiga.
(Caderno Azul - 2000)



quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

Coquetel molotov na porta dos fundos



O incrível da balbúrdia que incendeiam
é que você pode parar
e escolher
ver ou não
acreditar ou não
sorrir ou não.

Só não pode usar a física-química
da força gasolina
pra machucar
ou pra impor.

Rir é melhor que odiar.

CRiga.



Noêmia, a boêmia do Bom Retiro


Descobriram tarde:
Noêmia
era mulher de um homem só.

Se morreu trancada, tranquila
quimicamente tranquilizada,
descobriu cedo a chance de estar ao lado
do seu grande amor novamente.

O médico sugava seu dinheiro,
e o psicólogo só queria comê-la.
Todos queriam, e ela dava,
pra ela tanto fazia
cheia ou vazia:
ninguém preenchia o seu coração.

A última pílula foi abençoada
pela garrafa de vinho tinto intacta
presente do amigo Deise
de dois anos atrás:

“como Oscar gostava de vinho...”

Bebeu a garrafa inteira.
E ela caiu. A garrafa caiu.
Os cacos cortaram seus pés
e as janelas se abriram com o vento,
tempestade no apartamento.
A chuva encharcou o velho tapete
e um raio estalou entre seus olhos.

E Noêmia 
simplesmente nada sentiu.

Nem a dor nos pés
nem o frio pelo corpo todo nu
nem medo da amiga tempestade
nem castigada pela chuva colega de esquina
nem cega, nem viva, nem torta.

Nem assim tão morta...

A porta se abriu dois dias depois,
arrombada:
foto de Oscar colada ao peito
olhos estalados e um sorriso leve.

Descobriram tarde que Noêmia
que dava pra todo mundo
e que gargalhava feito trovão nos bares
e que roubava os corações dos homens,

era mulher
de um homem só.

Noêmia,
a boêmia do Bom Retiro.

CRiga.
(Caderno Azul - 2000)

  

Os garotos guerreiros


A vida que segue
também mede a resistência.
Se tem medo, nem vai –
fica em casa debaixo do cobertor!

Até que o barulho ensurdecedor
das crianças brincando na sala
te derrube da cama e da ilusão:

são elas as donas de sua vontade
dos seus passos, dos seus medos.

Quando eu era moleque
brinquei sozinho de matar dragões.
Meus meninos dizimam exércitos
num jogo de computador.

Diferenças não fazem diferentes.
Por eles suporto qualquer guerra,
não há terra que eu não vasculhe
procurando risadas, sorvetes
e as doces conversas do jantar.

Fossem comigo ao campo inimigo,
cantariam, contariam piadinhas.
A batalha seria mais linda e leve,
seria breve, e a gente venceria.

A gente voltaria tomando sorvete,
contando os dragões que tiveram fim.
Quando eu era moleque, faz tempo,
sempre quis guerrear assim!

CRiga.



quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

Nem sempre é o fim


Medo que nada,
passa.

Tem gente que encara.
Tem gente que morre.

Tem gente que nada de braçada.
Tem gente que precisa de boia
ou salva-vidas.

Tem cavalo que passa.
Tem cavalo que atropela.

Ninguém vai te dar o que queres,
nem a vida e nem a morte.

Pura sorte,
devolva um sorriso no ar –
o azar é o cego
que só quer ouvir o sim.

O fim do ego
engole o ego do fim.

CRiga.



segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

O desafio


Quando a folha começa
em branco,
um traço, um tranco
começa a história.

Pode ser uma memória de infância
até um amor que passou.
Mas o pulso quer insistir, correr
machucar o papel com a ponta do punhal –
vale também com caneta especial.

À luz de velas, luz elétrica
vagalumes ou olhos de gato.
Sobre o apoio da mesa riscada do bar,
sobre a capa do velho vinil
do flash back que não toca mais.

Basta não ter medo do branco
ninguém é santo nem demônio
todo mundo amou e odiou
sorriu, chorou, morreu um dia
renasceu no outro contando
como é ardente aquele inferno
ou como é chato aquele céu.

A nossa vida tem todos os defeitos,
os pesos que nosso papel pode suportar.

Mesmo o borrão da lágrima que cai
escreve o tempo que o espírito precisa
pra se reencontrar.

Desafio é encontrar palavra
pra alma que é certeira,
mas sem simples tradução.

Quando a folha termina
escrita,
ela não imita
nem nunca encerra a história.

Insista.
Queremos ler-te linhas,
ver-te vencer os brancos.
Traduzir-te.

Para Danilo

CRiga.