sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Garota de escritório


OK, nós não temos o mesmo naipe.

Você é boneca, eu
o velho, beberrão e safado
soldadinho de chumbo do Paraguai.

Você é seda, eu
a palha do milho, e não é tabaco
o enrolado no cigarrinho.

Você é idealista, eu
desisti de me atracar com ideais,
atracar mesmo só se for
numa cama com você.

OK, nós não temos o mesmo “taime”.

Você tem uma palavrinha em inglês
pra cada simples ação do seu trabalho,
eu, no máximo um dead line
até tirar a sua roupa depois das cinco.

Nós não temos as mesmas intenções.

Você quer subir na vida à custa
do que não consigo entender,
eu, subir teu corpo a qualquer custo
dos pés ao pé do ouvido
te dizendo as imoralidades que nos fazem,
enfim,
cada um a chama que nos mantém.

Não temos a mesma chama.

Mas me chama, meu bem,
me grita, me domina –
naipes, taimes e intenções
eu jogo no lixo
só pra te ver sorrir,
só pra te fazer feliz.

CRiga.


quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Litoral


Roubei do frevo teu sorriso
levei trevo de oito folhas
batizei um riacho escondido
com teu nome que corria comigo
na correnteza louca maravilha
fugindo dos piratas de gravatas.

Na ilha enterrei o tesouro
e pus bandeira de conquista
fundando nova pátria amada:
você é meu país de estrelas
meu velho novo continente
planeta azul da minha galáxia.

Babe, vem instaurar o novo farol,
à deriva minha nau ainda é tua!
Vem nua que eu te visto, babe
meu amor é pele e sagrado manto
e santifica teu corpo deusa da areia
fazendo teu templo à natureza bela.

CRiga.
(Caderno da Ilha - 2000)



quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Vila Carrão (velha casa)


Todos os cantos, cheiros e detalhes
naquela hora
invadiram a minha memória.

E era como se o passado todo passasse
a mil pelos olhos
querendo arrancar a lágrima.

Saudades estampadas nas paredes!...

Todo mundo já sentiu coisa parecida
e não dá pra não pedir licença
e não pecar pelo clichê
de confessar casos, rumores
e continuar com a vida.

Casas novas, paredes brancas
sem memórias.

CRiga
(Caderno Azul, 2001)



terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Hóstia craquelenta


Há um desafio pior.
Contra si é difícil vencer.

Ver auroras nubladas distanciarem
o verão dos dezembros.

Ver a hora passar sem lhe dar
razão de ser.

É uma batalha.
A história inspiradora fica chata.
Você fecha com raiva o livro.
Tempo perdido.

E eu não tenho tempo.
Na verdade, o tempo me corrói.

Me transforma ratinho no canto da casa.
Suspirando, transpirando, esperando.

A ratoeira enferrujou. O queijo já mofou.
Há portas sempre fechadas
porque penso ser pequeno.

A porra do livro chato foi que me disse!

Mas eu prefiro o céu nublado
a acreditar que o sol
é o sorriso de algum deus.

Meus desejos são confusos.
Não me venha então onipresente
querer me empurrar
aprender à força a voar.

está fechado, fitas amarelas da polícia.
Eu assassinei há muito tempo
o pastor, o carpinteiro
e o cientista.”

CRiga.


Arqueólogos


De olho na vida à vista
parti navio quebrado ao meio
naufraguei, virei peça de arqueologia
no fundo do mar gelado.

No convés ainda os violinos
conversando com baleias tristes
e delfins cujos olhares profundos
procuravam brincadeiras
e crianças que não nasceram.

Demora um tempo até a tecnologia
chegar ao fundo do mar gelado
e resgatar quem sabe um tesouro.

Demora um tempo até descobrirem
os segredos e sonhos naufragados
no fundo deste coração quebrado.

CRiga.
(Caderno da Ilha - 2000)



segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Horizonte


Entre ser e estar
quero o passo a passo, passear
paralelo às coisas grandes.
Grande coisa ser um importante,
estar a todo tempo em todo lugar.

Menos ritmo, mais cadência.
Menos dessa dependência,
mas sem precisar levantar espada,
apenas a velha enxada na terra.

Não dever nada a ninguém
olhar nos olhos, dizer das coisas que sei.
Aprender o que quero
não o que querem me convencer.

Eu insisto me despir.
Despedir-me deste lugar,
me despedir.

CRiga.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

Roda de capoeira


Dança que é luta, camará
a gente precisa dançar.
Luta que é dança, camará
a gente precisa lutar.

Se faltar água, a gente chove.
Se a gente chora, a gente ora.
Se tem dor de amor na roda
a gente dispensa num rabo de arraia
dança na praia pra Iemanjá
luta na área até cansar.

É preciso lutar, camará.
É preciso dançar, camará!

CRiga
(Caderno da Ilha - 2001)

(foto de Cauê Rigamonti - 19/06/2010)