quarta-feira, 27 de novembro de 2019

All Star vermelho


Dos poemas bonitinhos eu tiro sangue.
Caquinhos de porrada na boneca de porcelana.
O ácido vermelho aduba a terra seca.

As ervas daninhas enrolo e fumo.
Depois, a pele esfolada
denuncia a cama de agora.

Reviro entranhas
à procura de uma bela selvageria nova...

E simplesmente não consigo enterrar
aquele tonto all star vermelho
largado à beira do jardim.

CRiga.


A tristeza natural


Se a vida acabasse nesse instante
o céu ofegante
cansado de trovões gritar,
só poderia chovendo
apenas fazer chorar.

CRiga.
(Caderno Azul, 1997)

terça-feira, 26 de novembro de 2019

Desvirando besouros


Quando a vida tá assim pro ar
adianta pouco apenas querer
desvirá-la –
ela continua meio trôpega
e tomba logo, virada de novo,
esperando a luz da sala se apagar.

Melhor esperar a noite seguinte
a lua que muda de fase
e você que me sorri
mais uma vez.

CRiga.



Tortura


Daqui de cima vejo rostos de ponta-cabeça,
nervosas e amarelas gargalhadas.
Gritam gol de Pelé, gritam me exigindo respostas,
e feito criança só faço chorar,
sibilo, babo
e perco a inocência.

Dissonante, uma canção elétrica agarra meus ouvidos,
enquanto a manivela roda minha sorte num bizarro realejo
que não o da minha infância.
De repente é aquela corrente
salve a mim, não a seleção.

Antes era brincadeira de criança
a disputa n’água pra ver quem tinha mais fôlego.
Estou quase perdendo disputa e fôlego,
mas a mão que agarra meus cabelos
insiste em me salvar no jogo.

Resta de mim numa cela fria
apenas um farrapo, corpo marcado,
machucado, encharcado, queimado.
Mas este é o meu corpo, a exata soma
dos sentimentos que você quase conseguiu moer.

CRiga.






segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Um tombo na madrugada


Mergulhado
se esquece que a morte vem
trotando, avisando.
Uma voz rouca ao telefone.

Às vezes apeia o cavalo
deixa aproveitar o chá das cinco
com as rosquinhas de leite
que enganam o espírito.

Mas uma hora volta no pó da estrada
chega de madrugada, silencia os grilos.

Põe as cartas marcadas sobre a mesa
e não adianta protestar –
é sua assinatura ali grafada
as fotos então queimadas
num canto do velho quarto.

Caem ao chão o rosário,
a Nosso Senhora negra que dava medo
e o livro de Alan Kardec –
deixa quem fica defender quem vai,
leva quem nunca perdeu a fé.

Mergulhado nas gotas diárias do ácido,
se esquece que o seu corpo também padece.
Antes a morte leva alguém.
Depois, leva você também.

CRiga.



domingo, 24 de novembro de 2019

Vestimenta do dia


Lapido letras que valem o dia de cada leão morto.
Vejo espíritos refletidos no vidro da sacada.
A censura sobre as letras que não dão dinheiro.
Então me escondo, revejo prazos, e me flagro alma incompleta.
Dedicar-se, quanto tempo pra cada coisa?
Planos me fogem do controle feito areia solta ao vento.

Rápido, letras fogem para marcar o papel!
Leões rugem da cova que eu tapei com o rascunho.
Não havia o sobrenatural pra me assustar, inspirar.
O dia acaba, a noite vem com seu ar de ordinária.
Dedicar-se a que se a calma convém?
Panos de prato secam os pratos.
Roupas de escritório escondem o pranto.

Até a tecla off ainda foge de mim...

CRiga.



sábado, 23 de novembro de 2019

Lente de contato


Estes dias em que vejo espíritos
representam de fato
alguma certeza:

Um dia eu ainda escrevo
o livro desse nosso amor.

CRiga.