domingo, 17 de novembro de 2019

Jukebox


A paz existe
talvez acoplada
entre as pernas de uma virgem
talvez aplacada
no azul severo de um vestido
talvez embriagada
no verde dissonante de um olhar.

Talvez já muito próxima do fim
numa canção baixando preguiçosa
indo embora devagar no fade out
até a lúcida surdez corrosiva.

Até a incapacidade de renová-la
recriá-la mais bonita
em mais uma canção.

CRiga.
(Caderno Azul, 1997)



sábado, 16 de novembro de 2019

Interiorurbano


Nesta terra
quem mais se ferra
colhe menos.

Do meu chão tapete de asfalto
brotam apenas enganos e desilusões
santos falsos e mitos confusos
parafusos soltos das inseguras engrenagens
aragens que britam o solo bruto.

Nesta terra
quem menos faz
ganha mais.

Esta terra
encerra qualquer sonho interiorano
planta metal nas criativas cabeças
e erosão nas almas apaixonadas.

Cheiro de terra
aqui
deslizamento na favela.


CRiga.
(Caderno Azul, 1997)



sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Conviver com os erros


A vida acordou atrasada
e procurou por você
que foi embora.

A vida
é simples agora.

CRiga.
(Caderno Azul, 1997)

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Fronteira


O trem no subúrbio passa implacável
como um monstro de aço.
Estremece feito terremoto
as casinhas de papel.
Sacode os frágeis tapumes
em forma de abrigos
da favela fantasma.

Mas a arquitetura improvisada,
arte eternamente sem dinheiro,
não cai.
Imponente (do seu jeito) joga nas caras
a sofrida sobrevivência.

Porque a pobreza é assim:
enquanto não descarrila o trem
pra dentro da favela fantasma,

tudo é
cotidianamente
apenas transparente.

CRiga.
(Caderno Azul, 1997)


quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Bienal


Palavras me roem o calcanhar,
eu caminho sílabas acertando o passo.

Comem pela beirada,
correm licor pelo canto da boca.
Corroem, ácido sulfúrico,
o recheio do bombom.

Palavras se movem se inovando
a cada segundo, eu respiro frases
filtrando a poluição.

Palavras morrem no fim do dia
no fio do cabelo
silabando
sibilando baixinho
obrigado
uma poesia.

CRiga.


terça-feira, 12 de novembro de 2019

Ladrões


Desde tempos que busco na memória
nossa história não é das melhores –

algozes nos matando nas trincheiras
freiras nos amaldiçoando pelos caminhos
ninhos de cobras nossa cama
lama nos campos nosso lar
mar de baleias e peixes mortos
tortos anjos bebendo cachaça
praça de guerra nossa derrota
nota fria e falsa identidade
cidade que nunca é nossa
fossa no balcão dos bares
ares de inverno polonês
inglês defeituoso na fronteira
cadeira elétrica e masmorra
que porra de mil vidas nós levamos!

Mesmo assim
insistes me acompanhar.

Porque me amas desse jeito
feito filme
desde tempos imemoriais.

CRiga.

Juventude indiferente


Vida inteira pela frente.
Passou aqui em frente
e não parou.

Tinha milhões de conselhos
de velho pra lhe dar.
Não saberia por onde começar.

Melhor guardar no ar
fingir que ela não existe.

Resiste.

À tarde será melhor.
Lembrará que é velho.
Na verdade sem muitas verdades.
A verdade desencanta.

Desiste.

Urubus urubuzam.
Não sabe admitir fraquezas.
Vá com Deus e o Diabo.
Amanhã refaz o discurso.
Amanhã se apaixona outra vez.

CRiga.