sexta-feira, 5 de julho de 2019

Viúva


Procura por algo no fundo da gaveta
e apenas o rosto coberto pelo pó
na velha fotografia
denuncia.

Você não morreu
e os barbitúricos acabaram.

Abrir de manhã a janela molhada,
o gesto simples e simbólico pra continuar:
é como amputar os braços, se salvar
procurando no brilho tímido do sol
um sorriso-motivo pra acreditar.

Trocar a cama, os lençóis, o travesseiro –
tem aquele buraco irritante que sufoca.
A cada manhã faço uma promessa nova,
minha pressa é amiga da cicatriz vermelha.

Minha reza por um triz não é lamento.
Eu quase não lembro mais o dia
em que morri junto a você. 

CRiga.


quinta-feira, 4 de julho de 2019

Compromisso caseiro de vida – remake


Fórmulas mágicas,
deixar de querer adivinhar o futuro
a partir dos parcos sinais de hoje.

Faz tempo que sente a apreensão
do gênero operário.
A ameaça dos Brasis de hoje
declarada apenas na balbúrdia
dos recentes vencedores.

Antes
houve apenas o remoer de não se lembrar
como se faz alguém feliz.
A incapacidade de fazer feliz.

A incapacidade de se partir estas correntes
donas do seu amanhã.
De moldar o futuro dos filhos
a partir de sua vontade e certezas colhidas
de uma vivência plena, independente –
não de favores dos vendados olhos do poder.

Será que existe o tal do “dono do destino”?

Apenas ele vê a varanda ameaçada
quando este vento torto faz a madeira bater-se
querendo despertá-lo da languidez.

Mas ela ainda lembra o pito dividido
da Mariquita de Drummond.

A voz dela lhe abala
quando ele fala sobre seus medos.
Mas a voz dela também lhe acalma
como o rio profundo
que atravessa a cozinha de Adélia Prado.

“Lembre-se de nosso vinho de hoje à noite.
E pare de se coçar!”

CRiga.

"A crise..."


Burguesinhos e burguesinhas
que não precisam de carguinho público,
se encostam nas repartições
e inventam afazeres de cinco minutos
com a benção
do chefe do chefe dos médicos.

Enquanto pacientes recostam a cabeça
no banco duro do hospital capenga
esperando o médico que não bate ponto.

Não parece,
mas eu tentei escrever uma poesia...

CRiga.


quarta-feira, 3 de julho de 2019

"Ninguém é cidadão..."


Enquanto a cova não chega comendo
o pátio do Paço ali pertinho,
cegueira reina.
Na sujeira das calçadas tomadas
as torneiras são abertas
pra lavar os bolsos dos fantasmas.

Mataram-se por uma marquise
na esquina,
noutra fumam bebem injetam e revelam
a verdadeira cidade do outdoor.

Suja é pouco
buracos e semáforos apagados também.
Pouco dinheiro pra tudo
pouca vontade também.

Não é Turquia nem Síria,
Etiópia, Somália, Venezuela, Haiti –
o caos do mundo também é aqui
no centro da cidade que já era feia.

Na tentativa de falar sobre o amor,
o pulso amotinou-se – 
disfarçar paixões que é fácil,
difícil é conter a vida que grita
que cheira a mijo
no asfalto muito caro.

CRiga.


terça-feira, 2 de julho de 2019

Oficina


É proibido.
Esta tarde sempre tão fria
é um prenúncio do que não pode.

Não pode é eu sentir o vazio
de homem crescido inventando a dor.
Quando eu era menino
até gostava da Sessão da Tarde.

Mas o beijo que não dei na menina,
mais o que deixei de fazer adolescente 
com medo do castigo de um onipresente Deus,
me implica agora esperar a hora
de não morrer assim em vão.

Arquivaram o vídeo tape dos meus erros.
Mas qualquer dia a merecida conhecida sentença
vem de novo me sentenciar.

Cabeça vazia
é Deus quebrando tudo
na paz da minha oficina.

CRiga.

Me dá a mão


Crise é quando o semáforo na esquina
chegando à padaria do português
não te dá cor nem rumo.

É o qualquer lugar tá valendo
desde que não atropelado...

CRiga.

segunda-feira, 1 de julho de 2019

Doxepina



Corredor sem fim
rostos embaçados
vozes abafadas
câmera lenta
areia movediça
calafrio, frio
letras dançam
lábios moles
vida torta
vida acaba
de renascer tão morta...

CRiga.