quarta-feira, 24 de abril de 2019

Um outono sem conspirações


O outono e sua faca cortante
de ódio contido.

Frio seco feito lâmina na cara que encara
o caminho, um doce crime
licor de ácido na boca da noite.

Céu de estrelas atrás da fumaça,
a feia urbanidade vira poesia.

O dia uma boba fuga prum café
subversivo, na esquina do beco.
E com a ex-secretária do velho partido
tramar revoluções embaixo de cobertores.

O outono e sua face de sensações
contra o sentido da areia da ampulheta.

Violeta murcha, rosa que não a vermelha.
Dor no peito que não o sangue
da autoritária bala de borracha.
Estanque o desejo, guarde o frio seco
quase sangrento no fio da faca.

O outono e seu eterno vinho pela metade
escondido embaixo do casaco da cidade.
Já não somos mais tão jovens,
não temos mais conspirações.

O outono agora é só a impressão
da tola importância que demos às boinas,
cadernos nos bares
e poéticas revoluções.

O outono e sua faca cortante
de tantas desilusões.

CRiga.



terça-feira, 23 de abril de 2019

Carta não respondida


No meio do universo caiu a estrela,
esfarelou-se o brilho
feito lágrima geada.

Desde que o homem amou
pela primeira vez,
houve muita pedra no caminho
feito cristais deslizando
pelos rostos gelados da desilusão.

No meio da guerra a bandeira branca,
e um soldado raso chorou
saudades da namorada russa.

Desde que o homem foi à Lua
não pendurou de volta a estrela.
Houve muita chuva esfarelando desejos,
estilhaços, rostos cortados
pela lágrima da solidão.

A saudade é acenar solitário aos céus
num filme antigo em preto e branco.
Ver a Lua perder encanto
estrela despencando, triste cadente
sem brilho pra um desejo.

CRiga.


segunda-feira, 22 de abril de 2019

Melancolia em quatro estações


Folhas caem corações partidos
no asfalto muito caro da cidade feia.
Houve outonos em que os poetas fugiram
poetar nas mesas de outros bares.

Há um cravo amassado no bolso do casaco.
Barba a fazer, inverno no passeio público.
Um olhar entre procurar rostos conhecidos
e amores imperfeitos.

A moça que colhia flores na praça
não acha mais graça na primavera.
Ontem ela chorou uma lágrima quase seca
saudades do primeiro namorado.

No último dia do verão, dizia uma canção,
“nunca me senti com tanto frio”.
Não houve nem amor pra subir a serra,
pombos decoram o mar impróprio para o banho.

Quem sabe os céus do outono.
Quem sabe o cobertor do inverno.
Quem sabe a leve chuva da primavera.
Quem sabe a breve folga no verão.

Haverá um dia
em que a melancolia
não falará mais tão alto assim.

CRiga.


sábado, 20 de abril de 2019

Santa sexta-feira


– Salve Nossa Senhora Mãe de Cristo, o Nosso Senhor!
– Só os documentos, por favor.
– Tem certidão de batismo também.
– Por enquanto é só a Carta, senhor.
– Um dia de bons cristãos este!...
– Dia de trabalho. Responsabilidade, senhor.
– Ainda bem que a gente lembra o dia da morte de Nosso Senhor Salvador!
– O senhor bebeu?
– Não. Comunguei. Sangue de Cristo. Tem poder.
– Assopra, senhor...
– Não é derrama?
– Senhor, por favor...
– ... então vamos, vamos então orar...
– Senhor, por favor...
– ... não me livre do meu carro duzentas prestações vexame na família.
– Senhor, por favor...
– Morreu na sexta pra ressuscitar no sábado, aleluia!
– Soldado, me ajude aqui.
– Domingo ele voltou aos céus pros braços de nosso Senhor.
- Braços pra trás, o senhor está preso.

CRiga.


sexta-feira, 19 de abril de 2019

quinta-feira, 18 de abril de 2019

Poeta de escritório


Não tenho tempo, me escute:

Há um lírio escondido na gaveta
pode ser primavera ou psicodelia.

Meu amor, me ajude a contar histórias
que não relatórios de chatas reuniões...

CRiga.

quarta-feira, 17 de abril de 2019

Pólvora e hortelã


A veia nas ruas do Rio
urra sangue de Sampa
passa frio nas pontes do sul
e é explorada virginal
nas baías do nordeste.

Homens têm poder,
mas é só um deus que tem a força.
Com sua paciência onipresente
ele só assiste a tríades fatais.

Um caixeiro viajante desvia das balas
e leva a hortelã pras crianças da favela.
O Brasil ainda vive
o sorveteiro ainda vende o sorvete
e o traficante ainda vende a droga.

A esperança está no caixeiro que volta
destas esquinas muito loucas,
trazendo a bala de hortelã
com o doce sabor de redenção.

CRiga.