segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

De tempos em tempos (mitologia)


O piso mármore do inevitável mausoléu
quer apresentar-me mais um deus.
Uma provação, uma oração.

Provocação –
baixe a cabeça, cordeiro,
só quem tem cruz no peito
é que tem jeito pra chegar aqui.

O caminho que busco dali
é porque não quero chegar a lugar algum -
este, escrito linhas de um livro humano
que já matou quem não quis ler.

Caminho meu é porta dos fundos,
saída de emergência.
Não preciso das auréolas de liquidação
brilhando luz de led na escadaria principal.

Que falta fazem os pés no chão,
as mãos agarradas aos problemas
pra quem só pede solução.

Que falta fazem os deuses do Olimpo
muito mais lindos que os feios hebreus.

CRiga.


sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Tempo derramado


Lágrimas não mais temperam nada.

Eu sou um velho
sem tempero
sem tempo
sem veneno no copo do piano
sem rua se essa rua fosse minha.

Hoje, na pedra da amarelinha,
só o inferno vai me aceitar.

CRiga.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Códigos


Diz de coisas muito difíceis de entender
de aprender.
Eu te dei a letra e você não leu.

Quando da arte brota uma semente de reação
é flecha com flecha, fogo no pavio da bomba.
É o trigal na brisa e sua sinfonia.
É aquele brilho do olhar, sabe,
aquele que você até já tinha esquecido como é.

Eu te dei as páginas guardadas
da revista escondida no baú. Te dei o laço
daquela carta que colei no portão dela
e ela me vendo entre os frisos da veneziana.

Te dei a mesma velha promessa quebrada
quando ela não voltou a passar na minha rua.

Diz de coisas muito estranhas de gostar.
Eu te dei quente e frio, nunca morno.

Quando da arte cai a árvore centenária
por causa de um vento de setembro
é porque uma semente um dia brotou
com tempo de florescer.

Com alma de apreender.

CRiga.



terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Até o ano que vem


Passando pra dizer
da panela de pressão.
Não é feijão gordo
nem milho da nossa plantação.

É janeiro já tão quente
na cabeça já sem tempo de pensar.
Da alma que perdeu a calma
e o tempo de sentir.

Enquanto isso a seriema só
nos procura pelos cantos
cantando um choro de saudades
daquele nosso bom verão.

CRiga.


domingo, 20 de janeiro de 2019

Pureza


Eu vejo uma bela história de amor
sem toda tanta dor que senti.

Mas eu nem tenho este direito...
Não se pode querer postar os pares
nos lugares perfeitos da tua fotografia.

Não adianta adiantar-lhe
o olhar aos lábios –
a boca dela por enquanto só denuncia
a pisada na marca da amarelinha.

CRiga.



sábado, 19 de janeiro de 2019

Nunca me senti tão só (Lua e Sol)


Não o fato de você ter ido dormir
mais cedo.
Nem a cumplicidade que se engancha
na cerca do erro, esta hemorragia eterna
que dilacera a carne do perdão.

É a falta de um espírito amigo –
espíritos são bons amigos!
A falta de inspiração.

Dormir porque você mandou,
eu sou o garoto gripado querendo o sereno
ver a lua da noite que não acabou.

CRiga.



sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Um suspirar profundo


Saudade é coisa que pega a gente, e a gente parece que não quer desapegar.

Uma sensação de dor gostosa, a saudade que não dói. Sabe? Cutucar o canto do dedo, bicho de pé, café meio amargo, aquela cachaça mineira que desce rasgando?

Saudade de alguém é assim, te tira um pouco do ar, você fica meio catatônico, mas gosta da sua própria cara de bobo quando vê a fotografia daquele ser que você quase esqueceu que ama. E percebe que nem o tempão que passou fez você sarar!

É coisa que remexe a gente lá dentro, parece sangue gelado cortando o coração de compasso letárgico. É sentir frio no verão do Rio. É mentir que tá tudo bem, que amanhã a gente vem pra festa, mentir com o que está escrito na testa! Ora, ora…

Saudade é coisa mesmo de curtir, mexer o gelo no copo do Scotch. Uma vontade de esticar o braço, abraçar, pousar as mãos sobre o rosto daquele ser tão distante, beijar! Ah, beijar… No beijo a saudade quase acaba. Mas sentir saudade junto a quem sente a mesma saudade é fogo na bomba!

Tem gente que fala em matar a saudade. Mata não… Deixa ela meio moribunda, mas não deixa morrer porque senão o amor perde sentido. Sentir a saudade começar a reviver é como ver aquela velha orquídea florescer.

Saudade é tocar dó ré mi fá na flauta doce, fechar os olhos e pensar no Bolero de Ravel!

CRiga.