quinta-feira, 10 de maio de 2018

Viver não é ter (de saída)



Mas há de se dar graças sim pelos pés
que você ainda tem pra caminhar.
Portanto deixe seus melhores rastros,
assim você nunca vai se perder.
De quebra, leva consigo os bons.

Saber que você não viu o filme inteiro.
Dê graças sim pelos olhos que passeiam
dando signo às cores encrustadas
nas pedras no caminho, valiosas.

Pegar pela garganta o leão feroz
ou simplesmente acariciar a velha juba,
tá bem, eu não quero mais brigar.
Dêmos graças à paz da experiência.

É faro, não se engane com o perfume.
Há mulheres cuja graça tem a pele
dos poros da verdade,
e não há franceses que façam diferente.

Pode ser comer caco de vidro
diamante sofrido ou copo americano.
Importante é engolir com a alma do garimpeiro
que agradece a pepita do dia,
não com o desespero do alcoólatra no bar.  

Viver não é ter.
É saber deixar de lado, conceder,
cada um tem sua verdade na vida.
Mas quase sempre só é preciso
estar de saída, apenas agradecer.

CRiga.



quarta-feira, 9 de maio de 2018

O último outono


Há um friozinho n’alma, sabe...
É quando a certeza machuca.
Quando o nunca fica velho
e a gente precisa se preparar.

Há um amor guardado no armário, abre a porta,
lágrimas correm cobrindo a madeira.
Precisamos arrumar as malas, tirar as roupas,
nos abraçamos nus na cama quente
assistindo à estação nos acabar.

Há uma dorzinha, sabe, uma vontade de ficar,
decorar a casa e a canção mais uma vez.
Fizemos do nosso gosto e batalha
um abrigo que hoje bate sol.

Damo-nos as mãos, giramos a chave na fechadura
pela última vez, saindo pra não voltar.
Não há manhã de sol que esquente a alma,
não há dívidas pagas que apaguem
as nossas marcas nas paredes vazias.

Então me dá uma boa notícia –
melhor é falar de uma nova esperança
que correr pra alcançar o amigo carteiro
e dizer adeus, esta carta já não é mais nossa...

CRiga.


domingo, 6 de maio de 2018

A última nota



Deslizo meu arco no violino do meu pulso, que resulta em altas melodias de dor.

Caetano Palma Rigamonti



sexta-feira, 4 de maio de 2018

Nostalgia do futuro






Cada vez mais o sorriso de paz é lá,
viver em função de um ensolarado sonho
e de doces sensações.

Eu ouço teu eco de voz me chamando
pra ver o novo fruto que a árvore deu.

Eu vejo a mesma lua vermelha nascendo
lá no monte, como se fosse a primeira vez.

Mastigo com gosto o gosto tão bom
da fumaça do fogão a lenha.

Tateio a terra afundando os dedos
procurando minha raiz.

Na horta há um cheiro multitemperos,
pega pra mim, preciso pro jantar.

E por aí se vão os mais tantos e belos clichês.
Apenas os nossos planos de ser feliz.

CRiga.






quinta-feira, 3 de maio de 2018

Nuvenzinha na cabeça


A gente arruma a casa pra vende-la
a tarde inteira.
O trabalho que não rende te rende
e na verdade não dá pro sustento.
Há um tempo as coisas fogem do controle,
eu moro é num prédio do Brasil
que ainda não caiu.

Então não reclame quando se tem o que comer.
Fique quieto, ouça, festejar não dá mesmo,
nem detestar mais ninguém.

A gente arranca a roupa e o corpo em chamas coça.
A gente chama gente pra ver se a nossa casa vale tanto.
A gente vale mas se cala, na sala a gente morre
uma noite de cada vez.

CRiga.



terça-feira, 24 de abril de 2018

Dark lover


Eu garimpo sorrisos sobre a rocha lisa do desencanto
porque meu coração de pedra aprendeu a ser só.

Eu ensino o nó do marinheiro mais antigo do cais
e no mais,
sou o som da gaita solitária ao por do sol.

Nas esquinas eu assovio um samba esquecido,
a fogueira no tambor na verdade
me lembra um velho blues.

O cheiro do asfalto molhado
e o som do pneu contra a chuva
me dão a sensação de que nunca envelheci,
de que sempre sofri.

Eu sempre amei
como o último noturno da cidade que dorme.

Eu via luzes refletindo um neon de esperança etílica,
uma avenida cheia de carros que nunca me lavariam
a lugar algum.
Na mesma madrugada não havia mais ônibus,
itinerários nem eram assim tão importantes.

Restava então apenas o passo sobre cada passo,
um tênis surrado até a nova casa alugada.

Passei por sobretudos, viadutos,
aglomerações e olhares furtivos.
Me desculpe, eu me apaixonei,
não sei a hora de ir embora.

Estava frio, outono, e eu vi você sorrir.
Você dançava sobre a pedra do jardim severo,
a pedra do desencanto.

E eu te emprestei meu velho sobretudo.
E depois de tudo você me esqueceu.

CRiga.


quinta-feira, 19 de abril de 2018

Há um carrilhão de palavras sem sentido



Mesmo que me descubras antes de eu mesmo me anunciar, não poderás me acusar de nada enquanto não compartilhares apenas o que d´alma é honesto e verdadeiramente comunhão.

Percebe o quanto irrita o português camoniano?

Então perceba: é tranquilo traduzir palavras. Difícil é aceitar soberba.

O que tenho ofereço da forma com que uma abelha possa compor poemas enquanto ajuda a natureza.

O que tens ofereces da forma cegamente vaidosa de quem chantageia a semente com conta-gotas de fel.

CRiga.