quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Tempo derramado


Lágrimas não mais temperam nada.
Eu sou um velho
sem tempero
sem tempo
sem veneno no copo do piano
sem rua se essa rua fosse minha.

Hoje, na pedra da amarelinha,
só o inferno vai me aceitar.


CRiga.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Papiro colado no poste


Andar a pé sem esperar a hora
falar de flores, o jardim secou
em plena primavera.
Não há coisas belas pra se falar.
As flores de plástico estão caras,
O Sol nas bancas foi vendido
grita mazelas no horário de verão.

Há sempre um brasil desses aí
que nos persegue, inconveniente!
Vire logo a esquina, fuja,
brasil mendigo te dando o pão
que o presidente ainda pisa.

O diabo amassa o trigo
pra fornada patriótica,
e Deus amansa a massa
pros discursos da patrulha.

Dá de comer ao Brasil
arroz com feijão sem pimenta
um grão de conhecimento
um sorriso de criança
uma rosa perfumada
qualquer que seja a cor –

apenas flor, nada mais,
não vigie nem invada
meu daltônico jardim.

CRiga.

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Hoje eu quero o simples panfletar


Não posso me sentir meio feliz, sentimento de missão cumprida – na sequência a vida vira de novo a ampulheta, me põe pra correr aprimorando acertos, aprendendo com os erros.

Não posso me sentir meio sozinho, aquela velha lucidez incomunicável – há um Brasil que não nos deixa quietos, e quando você quase se acostuma com os desmandos, o seu dinheiro salva senadores e presidentes.

Não posso me sentir meio triste, quem vai sofrer pelos meus problemas? – enquanto olho pros umbigos mais próximos, um menino mata colegas na escola e o tráfico impede outro de estudar.

Não posso me dar o direito de desistir, a cabeça às vezes racha contra o muro que quer me impedir – há um espírito que insiste vestir o manto do brilho discreto de ir além de sobreviver nesta história toda, caminhando ruas e avenidas, e quebrando esquinas enquanto distribuo os panfletos que me cabem distribuir.


CRiga.


quinta-feira, 19 de outubro de 2017

(novo) Paredão


Inteligência mata
café também.

A burrice é mais bonita
não compromete assim ninguém.

A vida que é bárbara
mas há outras helenas na tevê.

Ninguém mais vê ninguém.
Ninguém sabe mais dos caos
dos maus, dos bons.

Eu quero ir embora,
esta zona não vale mais.

Eu quero ir agora
fugir dessa santa escola
onde cabeças não vão rolar:

elas estão demais ocupadas
assistindo ao Big Brother
no grande dia de eliminação.

No paredão,
dizem que entregou artistas
à caça de comunistas.
Dizem que copiou o grande irmão
de um colega russo, sem perdão.

Dizem que visitou exposição
de homem nu.
Que cuspiu na cara gritando histerias
atropelando o vermelho do sinal.

A vingança veio, véio
vamos votar,
vamos espera-la para o jantar.

CRiga.



quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Uma vírgula no tempo

A cabeça ferve letras, letrinhas.
A louça grita na pia, intrigas.
E eu insisto, aumento a fervura
da panela de pressão das ideias
enquanto corro o teclado
à procura de trincheiras.

CRiga.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Recado


Controle, não conte.
Mine, coma pelas beiradas.
Lembre-se que você tem medo.
Insegurança
Arme armadilhas.
Corroa com seu ácido.
Não deixe chegar, abrir a porta.
Tranque a porta.
Mande seguranças barrar.
Você tem pouca força pra usar.
Você não tem.
Você é pouca.
Você só usa.
Você só força
a sua própria forca.


CRiga.


segunda-feira, 16 de outubro de 2017

A patrulha dos chatos


Não me agradam heróis engravatados
ou muito bem barbeados, cara lisa
verniz dos bancos da igreja polidos pro domingo.
Mas também me chateiam as bandeiras coloridas
que se enfiam até num filme de ação
querendo mudar o sexo dos super-heróis.

Me enoja quem me cobra lados
quem exige assumir uma posição
entre o dedo em riste
e a provocação exagerada.

Entre as flechas podres flechas
do caçador guardião que acerta à esquerda
e do falso índio que desfila nu para a direita.
Pender é morrer flechado
pregado na árvore velha da praça.

Aquela da esquina
que desgarra folhas demais
sujando as calçadas dos senhores de bigode
à direita de quem passa com pressa.

Aquela mesma que se parece
um falo enorme capado
culpado, amordaçado, símbolo da opressão
à esquerda de quem corre da patrulha.

CRiga.