quinta-feira, 8 de junho de 2017

Paradinha à tarde


Letras escadas eu subo
eu corro, mais alto ofegante
olho pra trás e confiro:

não te disse que te amo
que te chamo
que não rimo com robô.

Amar-te agora parece apenas
lavar a pouca louça que me resta.


CRiga.


quarta-feira, 7 de junho de 2017

Festa


Dali em diante, fêmea decidida,
tomaria todas as bebidas da festa,
amazona bruxa louca varrida
varrendo homens de sua vida.

Glicose nunca faria efeito,
e o coma na cama se negaria
levar esta espécime da fortaleza
pro escuro, acender o sol.

Nada a deteria, nem os olhos azuis,
nem novo romance de guardanapo.
O vestido curto já incomodava,
queria mesmo era o moletom de domingo.

Pra puta que os pariu os caralhos!
Pra que lágrima se não dói o corpo?
Rodou o gelo no copo de whisky
e uma pontada gelada no peito
acordou o bicho mais sangrento:

solidão rangendo,
mordendo o salgadinho...


CRiga.


terça-feira, 6 de junho de 2017

Um novo horizonte


Aqui estou pro que der e vier.
O aniversário é meu, mas a sorte é tua.
Vem que o cadeado eu já quebrei,
o chaveiro fiz questão de perder.
Eu sei que a data marca, a gente treme,
e pra quem acredita no caminho
na igrejinha das quartas-feiras,
eu estou no altarzinho, braços abertos.
Não precisa mais limpar o corpo,
a alma a gente cuida de salvar.
Pode esquecer a coleira, a corrente,
há um latido bem conhecido aqui comigo.
É chegada a hora. Vamos embora.
Deixa anotado o teu salmo predileto,
e vem guiando nosso Volks azul.
Vem que te espero na primeira esquina
com aquele meu sorriso de primeira vez.

CRiga.


segunda-feira, 5 de junho de 2017

É sempre bom lembrar...


Na correria em busca de dias melhores,
a chuva de segunda não me constrange
nem me entristece.

O alcance das mãos é o suficiente.
O que não preenche
é falta de amor.

CRiga.


domingo, 4 de junho de 2017

Os noturnos


Os noturnos sabem bem
onde apertam todos os calos.

Alguns
simplesmente se calam.
Outros falam. E falam!
Ensaiando teorias.

Mas na madrugada serena
quase na primeira fornada de pão,
sempre pedem perdão.

E com a mão acesa
incerta seta apontada no infinito,
também pedem sem maldade
a santa saideira da saudade.

Para Carlão.


CRiga.


sexta-feira, 2 de junho de 2017

Demônios me visitam


Eu bebo um gole, a vida não me pede muito mais que isso agora. Não sei de trilhas, atalhos ou trincheiras – cedo ou tarde a hora chega, e eu não vou ficar contando estrelas. O corpo que ferve já nem sente as unhas que procuram frear a pele que denuncia um mal. Quero logo terminar as obrigações, à noite sei mais de mim, não saio, fico em casa, talvez um rock e mais um gole. Eu fico em mim com a certeza que sei fazer o que me proponho, mas não sei controlar as feras feias que forçam as grades como a Monga do Playcenter. Minha pele são as grades. Esta vida de criação cristã me fez ter medo de lobo mau. Ele bebe comigo. Depois vai embora, eu pago a conta, e faço de conta que Deus vai me castigar.


CRiga.


quinta-feira, 1 de junho de 2017

Rocha lisa


Duro é quando a água para de bater na pedra, e você tem tempo de querer sentir nos olhos o sal. O mar secou, diria Drummond, eu não sou duro, José. Eu sou a água que parou de bater na pedra. Eu sou também a pedra – rala lisa nua de cara exposta no vento cortante que vem num assovio do leito marítimo que virou deserto. De repente a onda (eu espero) vai me levar. Explodir como nos pesadelos. Daí posso ver teu rosto refletido na lua vermelha, enquanto submerjo levemente morto no mar do desengano, o mar tranquilo sem tempestades, tubarões e godzillas. A tal da bonança. Quando tarde demais os escafandros descobrirão uma carta borrada no bolso do surrado jeans, apenas uma poesia pra você, a nobre arqueologia, o dia em que eu finalmente decidi te procurar nos versos que não saíam, pois duro era quando a pedra rolava o penhasco e você, na beira do precipício, me esperava encontro marcado. Sempre nos desencontramos. Eu não honrei canções. Não te esperei feito pedra postada à beira-mar. Eu me gastei. Virei cascalho. O vento me levou. O mar voltou a ser o mar. E você, aros pretos nos olhos cansados da lua vermelha, resolveu sangrar a lágrima que meus olhos não conseguiram chorar àquelas tardes. Era muito tarde. As letrinhas já subiam dando os créditos no final do drama. Quem ama em silêncio encrudesce a poesia...


CRiga.