quinta-feira, 23 de março de 2017

Tarde de outono


Perdido na tarde do velho outono
conserto – sei –  à linhas nobres
as letras de bons amigos meus.

Corrijo até destinos, reencaixo rumores.
Eu só não queria sentir o frio da tarde
e seu desânimo de fim de vida.

Fazer o que se gosta é bom.
As sombras do tirano me lembram
apenas que não sou mais um robô.

A vida segue, é esta que te acontece –
a avó velinha que morre assim singela.
A torcida por um menino empatar o jogo.
A bronca no garoto que perdeu a hora.

Ainda te amo, garoto. Te amo mulher,
te quero, ainda espero as tuas 17 horas 
finalmente me salvar.

CRiga.


quarta-feira, 22 de março de 2017

Exorcismo


Não quero as letras de tuas mazelas.
Não quero te dar trela, envelhecer.
Não quero te atribuir estrelas.

Mas insistes me perturbar, diabo de terno,
lobo podre em pele de temente
e brochinho de parlamentar.

Eu não tenho nada, mas tenho tudo
não estando do lado perdido.

Eu não rezo e não engano.
Você ora ferrenho,
engana e se engana.
Simples assim.

Tem gana em iludir
iludir-se, pobre coitado da faxina
que venceu na vida
e perdeu no caráter.

No cateter
da tua fodida personalidade sorridente,
corre apenas água morna –
aquela que nem quente nem fria
só faz vomitar.

Eu preciso de um exorcismo.
Você me plantou as labaredas do inferno
na pele que coça
e um diabo no corpo.

(e eu que fui procurar imagens dos teus vícios
e tantas tantas encontrei...)

CRiga.



terça-feira, 21 de março de 2017

Sintomático (parte dois)


Se a pele ferve a verdade da alma.
Se a calma não faz parte deste corpo que sofre.
Se o medo corrompe até o pensamento mais forte.
Se o tirano ainda domina sua estima e sua sorte.
Se a morte não é alternativa.
Se o sol resolveu entregar-se ao conveniente outono.
Se o sono é o amigo traiçoeiro que te acorda.

Se a corda sempre rompe pro lado mais fraco.

Tome cuidado. Um trago. Uma cerveja.
Tenha certeza que o se passa.
Mate um de cada vez, tiros certeiros ou não,
monte guarda no saguão, aponte sim o inimigo.

Nada é simples. Nada é certo.
Eu estou muito triste. Ando.
Eu não devia estar aqui.
Eu não devia estar assim.
Nada mais.


CRiga.


segunda-feira, 20 de março de 2017

Um passeio a boa vista


Eu procuro a paz, um clichê, que seja.
Um passeio pela boa vista, um rio o ano inteiro.
Eu procuro saber se tenho jeito, se no peito
o coração aguenta, se consegue resgatar
os passos tranquilos pelo Paço.
Eu apenas faço de conta que sobrevivo -
eu insisto procurar-me
meu lugar sou eu.

Busco em mim os dias
em que finalmente me veja sem pressa,
homem livre, peito aberto
num passeio pela boa vista.

CRiga.



O tamanduá


É que eu quero saber
se mereço teu querer
destruir, destruir-se
maremoto, terremoto
no nobre formigueiro.

Mas você existe
subexiste
sobrevoa
urubuza.

Chamusca
chafurda
fode
vomita
engole.

Eu ainda vou escrever
sobre o ser que habita
seu habitat particular.

CRiga.


quinta-feira, 16 de março de 2017

Anencéfalo



Pré-nasci, sou assim sem cabeça
eu penso com o coração...
e por isso nem sei se sinto dor
depende de minha mãe:
se ela sofre me dói também
e prefiro acabar com a dor;
se acredita me alivia
e me dá mais um dia.

Quem disse que não a vejo?
Eu vejo sim, o rosto dela
em mim,
e mesmo que eu não saia vivo daqui
ninguém sai vivo de lá também.

Depende de minha mãe...
Eu não sei nada, nem pensar -
e ela também não, tudo bem:
só sei que ela quer o melhor pra mim
só sei que ela quer o melhor pra ela também...

...há melhor no pior, mamãe?


CRiga.


quarta-feira, 15 de março de 2017

Corujice...


Apresentação do pequeno pianista Francisco Rigamonti (por acaso, meu filho), acompanhado da linda bailarina Carolina Gaspar, no Teatro Municipal de Barueri, segunda, 13. Performance linda e emocionante de Pour Elise, de Beethoven. Orgulho!

CRiga.