segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

As doces receitas de nossas vós


Há um ritmo da vida que confunde a alma.
É quando você não reconhece que ela acontece,
que o sol vai nascer independentemente
do que você resolveu achar dela.

A deliciosa surpresa é quando na coragem da luta dura,
na tristeza de descer degraus, de subir ladeiras,
você se depara com você mesmo no topo
sorrindo – marotice!

Que idiotice amaldiçoar seja lá o que for,
que invencionice adotar a dor
como inspiração de poesia.

Todo dia nasce conforme a receita de bolo
que tua vó guardou num caderno do antigamente.
Dona Maria Leite, vovozinha Aparecida!


CRiga.


domingo, 5 de fevereiro de 2017

Meu domingo com Caetano


Domingo é mais que o dia
de lembrar como a semana foi.

É o dia de fuçar fotografia
relógio velho do avô
que ainda funciona muito bem.

O bilhete que você guardou,
o disco novo que você ainda não tocou.
A arrumação pela metade
que nunca ninguém vai arrumar.

A vontade de chutar a segunda,
sempre há uma segunda chance:
o dia em que o lance duvidoso
é o pênalti que você precisa.

Domingo é sempre lindo,
é a semana à frente vindo
com aquele ar de engolir.

Mas o que me importa mais, meu domingo,
é meu filho, sempre tão lindo,
que continua triste procurando o sol
que não o sol que a gente
conheceu sempre tão bem...

Domingo é sempre lindo.
Só meu filho que não percebeu.

CRiga.



sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Montanha russa


Você quis o perigo,
flertou sem admitir o medo.
Depois da subida, a queda –
mas uma hora
tudo vai parar.

Daí de novo você vai querer provar
que, ainda vivo,
não tem medo do perigo.

Tristeza maior é não arriscar,
pior é morrer ainda respirando
mas ruim é viver
também perdendo o ar.


CRiga.


quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

A bola démodé da vez


Esta é a era do insano fora de moda –
triste também é ter de recorrer
à moda pra lhe esculhambar.

É muro, duro feito cowboy,
nem Hollywood mais dá bola.

Assola, ameaça.
É ultrapassado.
É Chaplin brincando equilibrando o globo,
comédia sem a menor graça...



CRiga.

O desafio


Quando a folha começa
em branco,
um traço, um tranco
começa a história.

Pode ser uma memória de infância
até um amor que passou.
Mas o pulso quer insistir, correr
machucar o papel com a ponta do punhal –
vale também com caneta especial.

À luz de velas, luz elétrica
vagalumes ou olhos de gato.
Sobre o apoio da mesa riscada do bar,
sobre a capa do velho vinil
do flash back que não toca mais.

Basta não ter medo do branco
ninguém é santo nem demônio
todo mundo amou e odiou
sorriu, chorou, morreu um dia
renasceu no outro contando
como é ardente aquele inferno
ou como é chato aquele céu.

A nossa vida tem todos os defeitos,
os pesos que o papel pode suportar.
Mesmo o borrão da lágrima que cai
escreve o tempo que o espírito precisa
pra se reencontrar.

Desafio é encontrar palavra
pra alma que é certeira,
mas sem simples tradução.

Quando a folha termina
escrita,
ela não imita
nem nunca encerra a história.

Insista.
Queremos ler-te linhas,
ver-te vencer os brancos.
Traduzir-te.

Para Danilo


CRiga.


Desclichês


O fim do arco-íris
não é o pote de ouro.
É só o fim do arco-íris.

O que é fim não é feliz,
o que importa é a viagem.

Na viagem eu te conheci,
ainda viajo te conhecendo
não quero chegar ao fim.

Não quero pote nem ouro,
quero apenas virar ao avesso o arco-íris
ou numa cambalhota-brincadeira
ver tua boca colorida sorrir pra mim.

O fim do arco-íris
é só o canto da tua boca
me chamando assim de lado
quando beijo o teu sorriso.

Para Clau

CRiga.  


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Nos salvaremos?


Tempos cinzas da crise que nos bate,
cabe a nós forçar na terra a raiz da paz
e sorrir às crianças que nos esperam em casa.

Andamos tempos só na corda bamba
sem providenciar a cama elástica
caso uma tempestade nos derrubasse.
Demos ao doce refúgio nosso gosto,
construímos o que é nosso abrigo
e precisamos agora nos despir daqui.    

Mas é tudo tão difícil, vender as roupas,
ficarmos nus apenas com a alma.
De onde retirar a energia, ela se esvai,
a cada madrugada o rosto atônito
sentinela engole o escuro da agonia.

São tempos confusos, eu quero a liberdade,
mas ela é tão cara quanto inalcançável.
Eu quero fugir desta cidade,
eu tenho a idade pra ser feliz.

Nos salvaremos.
Mas a custa de quantos anos envelhecidos
nestes parcos dias cinzas de confusão,
nestas duras noites de solidão
que martirizam o espírito em vigília?

Eu espero. O monstro não.

CRiga.