sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Paralelo


Cometa enfim o ato derradeiro
e feche de vez as cortinas da
tragicomédia.
De agora vão se embora os
espectadores,
de agora as dores permanecem.

Provoque no fim o riso,
porque enfim
as cortinas se fecharam
mas o teatro continua.

CRiga.


Fotógrafa (ira)


O pequeno anjo trocou a harpa
por uma UZI.
O cupido trocou a flecha
por napalm.
O padre trocou o perdão
pela unção de ácido sulfúrico.
A freira trocou o hábito
por um cinturão, kamikaze.

Há uma hora em que
ou você pega o touro pela unha
ou morre atropelado por uma vaca.

CRiga.


quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Aquela única lágrima de ódio


Pipa tomada
da mão do pirralho marrento.

Ex-namorado com nova namorada
mãozinhas dadas ou carona no carrão.

Topada do dedo na quina da cama,
“machucou, amor?...”

Salto que quebra na festa
e o paquera fingindo não ver.

Policial e o tapa na cara
no protesto contra a tarifa do ônibus.

Sorveteria fechada em pleno domingão
no sol ardido do verão.

Pênalti perdido na final de Libertadores
e o amigo gritando tirando um sarro.

Celular roubado, celular perdido,
celular quebrado, internet lenta.

Bola do sorvete despencando no chão,
cachorro que lambe sem perdão.

Último bombom que o irmão comeu.

Chute no saco do irmão
que comeu o último o bombom.

CRiga.


Anencéfalo


Pré-nasci, sou assim sem cabeça
eu só penso com o coração...
e por isso nem sei se sinto dor
depende de minha mãe:
se ela sofre me dói também
e prefiro acabar com a dor;
se acredita me alivia
e me dá mais um dia.

Quem disse que não a vejo?
Eu vejo sim, o rosto dela
em mim,
e mesmo que eu não saia vivo daqui
ninguém sai vivo de lá também.

Depende de minha mãe...
Eu não sei nada, nem pensar,  
e ela também não, tudo bem –
só sei que ela quer o melhor pra mim
só sei que ela quer o melhor pra ela também...

...há melhor no pior, mamãe?

CRiga.


quarta-feira, 3 de agosto de 2016

“Por favor, compareça ao RH...”

Na encruzilhada a cruz,
o último apaga a luz.

Jesus sorri para os ateus,
Deus não existiu.

Deus não resistiu.
Jesus?

Era o funcionário do RH...

CRiga.

Canção


Você me chama nos sinais,
mas a vida é isso o que te acontece
assim, nem menos e nem mais.

São os anos que se passam –  
o drops de cereja que acabou,
o surrado jeans guardado
junto ao velho all star vermelho
no fundo do guarda-roupa mofado.

Uma foto desbotada
uma carta, um perfume.
A data de aniversário,
a música que gosta.

Há sinais que ficam marcados
feito tatuagem marginal,
ou riscados na escrivaninha de cedro
abandonada no porão.

Cabe apenas colocar melodia,
nova canção, velho tema.
No walkman quebrado
o cassete enroscado
terá vontade de rodar.

Roda a cidade, meu amor,
há uma canção já pronta
em cada estação
onde a gente se encontrou.

CRiga.


Pouco a dizer


Um sol briga com você, não é hora de se encasular e esperar a primavera pra talvez a nova borboleta entre as flores do jardim. Acuse, mas não desaprenda a voar. Talvez seja necessário sacrificar o casulo, quem sabe cavar um espaço na toca das formigas operárias.

Um sol briga com você. Talvez os óculos escuros escondendo as lágrimas te impeçam de encarar o brilho que ainda dá pra conquistar, nem que seja o brilho de um sol do outro lado do planeta. Mas não fuja tão longe assim – não precisa acreditar no biscoitinho chinês da sorte.

Biscoito da sorte. Receita de bolo, bula. Frases feitas, um livro de Paulo Coelho pra te autoajudar. Uma oração, se você acreditar – “mas se Deus quiser”...

Eu prefiro o “tudo, tudo, tudo vai dar pé”.

CRiga.