quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Culpa

Uma pressão na ponta da espinha,
dentro da nuca –
alguns chamam simplesmente “angústia”.

Por mais que o cinza cubra os olhos
num belo dia de sol,
você ainda procura, louco,
saídas vermelhas de emergência
nas trincheiras que se desintegram
embaçando a cansada visão,
e você tenta pensar, calcular, se esconder...

Mas o tempo é falsificado, caos, câmera lenta,
um milhão de anjos negros passeando vertiginosos
atrás da retina escura que só procura espaços vagos
em qualquer multidão –
um olhar no vazio, então,
pra fugir, fingir que está tudo bem.

Aceito, não há como perdoar.
Mesmo que haja, alma serena me estendendo a mão,
minh’alma corre assustada ao meu porão:
ali dorme o monstro implacável,
tirano, acusador.

CRiga


segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Adolescência

(assisti ao “Califórnia”, de Marina Person, neste domingo. Nostalgia... Resgatei este de 2004)

Viajava pela memória
de um coração que já é não meu...
Viajei dancei fiquei
namorei traí galinhei
sofri
ah, como sofri!...

E me arrependi...

Voltei,

eu fui sem guia, muito certo,
ao teu inferno que fundei.

Não te encontrei,
eu fui embora,

eu fui a hora de me tornar alguém.

CRiga.


sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Doux guillotine

A paixão move à arte,
o amor eterniza a obra.

A paixão escreve a história,
o amor mantém os mitos.

A paixão coroa os gritos,
o amor sibila a paz.

A paixão é o az da rodada,
o amor é o rei do jogo.

A paixão corre solta no pó da estrada,
o amor sopra tranquilo na alma da brisa.

A paixão é a tempestade,
o amor é a casa no campo.

A paixão destrói a fortaleza,
o amor instaura o jardim.

A paixão faz bater nas paredes
a cabeça que insiste pensar,

o amor
a decepa de vez.

CRiga.


quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Um olhar profissional



Encontrei de novo às duas da manhã. Depois da boate, das bebidas, dos cigarros. Depois de você vender seu corpo a quem pagasse bem, loira linda que você é. Não ia pagar. Não ia querer ter teu corpo por profissão. Apesar de querer muito, como queria!... Mas pagar seria me trair e matar o seu olhar. O seu olhar brilhante naquela meia luz de boate. Olhar pra mim, sentado te amando com os olhos, uma vida inteira. Um sorrisinho meigo de canto. Fugi na noite pra encontrar você.

O mesmo olhar brilhante agora sobre aquele viaduto, você de cima, no peitoril, o decote e os seios lindos apoiados no concreto muito velho do Centro da cidade. Os meus olhos acompanhavam teu corpo, horizontal saindo do peitoril até o par de pernas, cruzadas à altura da canela, um pezinho de ponta, ao lado do outro, de apoio. Linda, de blusinha vermelha e saia jeans preta. Sapatinhos pretos também, tipo bailarina, de pano. E os olhos brilhantes olhando o nada além daquele viaduto. E mais aquele sorrisinho meigo de canto, na boca batom vermelho.

E me perguntava se valia a pena ir conversar contigo. Se me daria atenção, apesar dos olhos brilhantes lá na boate. Pensava: bobagem minha, não vi olhar pra mim. E me contrariava. Não, eram pra mim, sim! Diferente daquele olhar profissional caçando homens. Olhou pra mim de forma diferente. Olhou sim!... Olhou?... E o sorriso, aquele cantinho da boca linda vermelha era meu? Era meu, só podia ser, só eu vi!... Eu vou lá!

Daí cheguei.

Boa noite.

Oi.

Distante?...

É...

Cansada?

Não...

Esperando algo?

Já encontrei!...

Beijos. Mais beijos, fundos, profundos, ardentes. O batom vermelho borrava minha boca, minha mão já passeando por baixo da tua saia, a tua mão por baixo da minha calça. Linda, loira!... Duas da manhã, ninguém passava, você agora sentada no peitoril, eu no meio de teu lindo par de pernas, e a noite que era quente demais!... Quente. Explosão. Morno. Suor. Sorrisos. Olhar brilhante. Profissional...

Aqui é um pouco mais caro, amor. Um pouquinho só...

Um olhar profissional. O meu, de brilhante a fosco. Cor da noite quente vermelho Vênus ferido sangrando por cima da minha cabeça quente zoeira olhar profissional se apagando um empurrão um grito uma noite um olhar distante um olhar mais distante um barulho seco no asfalto quente lá embaixo. Um olhar profissionalmente morto no asfalto quente vivo.

O meu olhar era de verdade. E não mentiu nem na hora que o desapontamento vermelho apagou seu brilho. Fui embora, ninguém viu nada. Voltei pra boate. Paguei no caixa. Me deixei esquecer. Sirenes ecoavam. Eu bebia uma cerveja.

CRiga.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

A esquina cega


Se essa rua se essa rua fosse minha, eu fechava só para você passar. Mas um de nós quebrou estrelas sem autorização dos deuses solitários. Os cacos ainda estão naquela esquina. Naquela maldita esquina que você não quis mais quebrar.

E ela não quebrara mesmo aquela esquina. Como vingança de tempos ginasiais, quebrara sim a promessa de passar por ali novamente e irem juntos ao ponto de ônibus. Ele ficou esperando, tempos e tempos, à frente o portão, à espreita da janela, mas a hora ia vencendo o desejo e a noite escurecia sua esperança que era morena.

Ela nunca mais passou por sua rua. E ele nunca desistiu, e mesmo depois de anos, passados namoradas e casamentos, sempre que ia à velha casa da mãe olhava em volta na esperança de vê-la passar. O seu sonho juvenil, o seu sonho que nunca morreu. O seu sonho que quebrou uma promessa e nunca mais passou por ali, deixando ele com aquela vagacidade no olhar, na vida, aquela saudedezinha besta juvenil, tão doce que sempre voltava ao portão da casa.

Um dia ela vai voltar, não apenas nos sonhos mais intensos, aqueles que ele acordava suado com tantas saudades do que não foi. Ela voltaria mais tarde, na hora certa, que sabe tão tarde que a hora certa seria apenas um eco descendo a rua à procura de sua cor morena.

Ele nunca tirou os olhos e o coração daquela maldita esquina. Envelheceria à espera, mas a veria na curva, subindo a rua à caminho do ponto de ônibus. E ofereceria, de novo, sua companhia. Ela aceitaria. E cúmplices do tempo perdido, promessas perdoadas, as mãos dadas naturais falariam tudo, diriam tudo o que nunca foi.

Depois disso, um ônibus qualquer os levaria. Já não importava destino, só o reencontro. A esquina maldita para trás, a avenida larga pela frente. E um olhar daqueles tristonhos, de tempos que se arrastaram quase eternos à espera, uma vontade de esganar a vida, voltar no tempo e maldizer os desencontros. Mas não precisava. Mãos dadas no finalzinho da rua, passos lentos, breves relatos, amores que não deram certo, saudades e doces lembranças.

Da esquina cega, apenas um muro novo protegendo um novo lar, na rua onde ela vai voltar. Tem que voltar. Assim termina toda a história com final feliz.

Se essa rua se essa rua fosse minha, eu fechava só para você passar.

CRiga.